O santo remedinho cor-de-rosa

“Meu pintinho amarelinho cabe aqui na minha mão, na minha mão… Quando quer comer bichinho, com seus pezinhos ele cisca o chão…”.

Tento me concentrar para escrever, mas é impossível. Minha afilhada de três aninhos está sentada aqui do meu lado, vendo desenhos da Galinha Pintadinha pela enésima vez no meu tablet.  Tipo lavagem cerebral mesmo.

Telefonaram da escola dela dizendo que a menina chorava de dor no ouvido. Claro que fomos buscá-la em seguida. Já medicada, em casa, ela só fica à minha volta, exigindo atenção. E eu, boba que só, não resisto aos seus apelos.

– Ai, minha orelhinha! Dói muito! Quero remedinho!

Ela chorava e reclamava, no carro, enquanto vínhamos do colégio. As lágrimas saltavam longe. Abriu o berreiro no médico e na farmácia. Quando viu que o remédio era cor-de-rosa, começou a melhorar.

– Olha dinda, é rosa! Que legal! – Disse, entre suspiros.

Por que será que estas menininhas, quase todas, são tão apaixonadas por esta cor? Chega a enjoar!

Santo analgésico!

O que seria das mães sem remédio rápido para passar a dor… Alívio para ela e para nós também – e para os ouvidos de toda a vizinhança, porque nunca vi chorar tão alto.

Criança doente é uma agonia, ainda mais quando não sabe dizer exatamente o que está doendo. É o fantasma que assombra a vida de todos os pais, especialmente os de primeira viagem.

Eu lembro que telefonava para a minha mãe, para a minha sogra, pedia conselhos para a vizinha, que era bem mais experiente. Mesmo assim, acabava correndo para o médico, que quase sempre me dizia:

– Calma mamãe, é assim mesmo. Bebês não são bonecos. Eles têm cólicas, têm dor de garganta, de ouvido… Você tem que ter um pouquinho de paciência… Quem está precisando de remedinho é a senhora, não o bebê!

Argh! Melhor nem repetir aqui o que eu pensava. Mas no findo, no fundo, eu sabia que ele tinha razão.

Só que falar é fácil.

À medida que a dor passava, minha afilhada Ana Clara voltava a ser a garotinha elétrica e falante de sempre.

– Dinda, onde tá o pédi (ipad)?

Santo remédio!

A guriazinha mexe no aparelho com mais destreza do que eu. Acha em segundos os desenhos e musiquinhas que mais gosta – entre eles, claro, as da Galinha Pintadinha e sua turma – que estão fazendo “música de fundo” neste momento, enquanto escrevo. Já decorei as letras das canções dos DVD s1, 2, 3 e 4. Será que já tem o 5?

Com filhos crescidos, mato a saudade de ter criança em casa com os afilhados, que vivem por aqui. Entendo as mulheres que não querem filhos. Eles realmente dão trabalho, despesa, exigem uma atenção e tempo que nem sempre podemos dar. Mas, por outro lado, nada no mundo é mais gostoso do que um abraço apertado e um beijo de um filho, seja ele criança ou não. Ou de um afilhadinha, que olha bem séria para você e diz:

– Dinda, chega de “tabaiá”. Vem “bincá” comigo.

Impossível negar.

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