Thamires Tancredi: Por que as mulheres não devem querer pagar menos nas festas

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Desconto é bom e todo mundo gosta. No caso da meia-entrada para estudantes, é mais do que justo: todo mundo aqui sabe que universitário vive num perrengue absurdo de grana, e eles precisam ter acesso à cultura, shows, cinema, teatro. Mas e quando oferecem um desconto simplesmente por você ser mulher?

Eis uma prática tão tradicional que, muitas vezes, a gente só “aproveita” e quase não questiona. Mas você já parou para pensar o porquê de cobrarem menos para mulher entrar em festa? Em duas palavras, dá para resumir: é puro e simples sexismo enraizado.

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Antes que alguém revire os olhos e diga que tudo vira mimimi das feminazis (aliás, que termo nojento, hein?), vamos analisar juntinhas. Se cobram menos delas, é porque querem aumentar a oferta feminina naquela balada. Pagando menos, mais mulheres vão ao evento. Há ainda aquelas casas noturnas que dão free para elas até determinado horário. Até a meia-noite, um exército de moçoilas se aglomera para entrar antes que o desconto acabe. Quando o relógio vira, os homens começam a chegar e encontram nada menos do que a pista cheia de “opções” (muitas, mas muitas aspas aqui). Aliás, com o ingresso mais caro para eles, é comum que a festa tenha bem mais caras do que gurias. O efeito do desconto aparentemente sem malícia é um só: aumentar a quantidade de mulher disponível para cada homem. Não é perturbador?

Esse tipo de convenção pode até ser benéfica para o bolso, mas o que está por trás é mais uma faceta do machismo. Reforça, inclusive, papéis de gênero a que estamos acostumadas a ainda presenciar: o homem pode pagar mais porque ele carrega a alcunha de provedor do lar. Aqui, a mulher acaba virando um produto: eles podem pagar mais, então têm acesso a mais itens na prateleira. Fica subentendido também que a mulher não pode pagar o mesmo do que o homem, e por isto ganha esse arrego de pagar menos.

Agora, pausa. Provavelmente, o argumento da desigualdade salarial pode aparecer aqui. Há quem diga que elas historicamente sempre ganharam menos do que eles, então é “justo” que paguem menos. Mas pense bem: é assim mesmo que a gente quer rebater disparidade de salários, com outra diferenciação por gênero? Não é mais recompensador e correto que a gente brigue por equiparação e remuneração justa ao invés de aceitar uma “esmola” de desconto em festa? Não precisamos de soluções paliativas momentâneas, e, sim, de uma mudança a longo prazo – e não é com descontinho que vamos ficar satisfeitas.

Há aqui outro tipo de situação em que a mulher é cobrada de maneira diferente por conta de seu sexo: em restaurantes e bufês. Sushis, churrascarias, rodízios e toda a sorte de estabelecimentos self service, vez ou outra, aparecem com essa prática. Subentende-se que a mulher, por suas características biológicas – e, claro, por ter a obrigação moral de ser delicada e viver em dieta – come menos. Os homens, esses trogloditas, sempre comem horrores. Não é surreal? Eu conheço vários guris que mal beliscam. E várias amigas que são muito boas de garfo, obrigada. Não faz sentido cobrar mais de um cara com a percepção de que ele come muito, e que vai obrigatoriamente comer 25% a mais do que a namorada. Não dá para colocar as pessoas em caixas e rotulá-las, até na questão comida. Simplesmente não dá.

Se eu fosse mais cara de pau, queria ter o prazer de ir a um restaurante desses, comer até dizer chega e depois comentar com o gerente: “Perdeu dinheiro comigo por ser preconceituoso, viu?”. Mas quando deparava com uma festa que cobrava um valor menor por eu ser mulher, não conseguia ver vantagem, mesmo. Sentia que me achavam inferior por ser mulher e por não ter a “capacidade” de pagar o mesmo do que um homem para entrar naquele lugar. A impressão de que me viam como um número: mais uma mulher para encher a casa e chamar mais “machos”, atraídos pela larga oferta de presas. E só conseguia ter repulsa.

Já faz muito tempo que deixei de ir nesse tipo de festa. Até o debate voltar à tona no Fantástico, quando um estudante de Direito conseguiu uma liminar na Justiça contra a organização de um show que fazia cobrança diferenciada em Brasília, nem me passava mais pela cabeça que isso ainda existia. Talvez porque eu viva em uma bolha, admito: frequento muito mais festas GLS, em que, por essência, não há diferenciação por gênero. Você paga o mesmo ingresso sempre, seja gay, hétero, trans, intersex, pangênero, genderqueer. Você paga o valor da entrada enquanto um indivíduo que é, igual a qualquer outro, e não de acordo com o papel de gênero que a sociedade espera.

Pelo menos na lei, agora isso vai acabar. A Secretaria Nacional do Consumidor, órgão ligado ao Ministério da Justiça, agora determinou que a cobrança diferenciada é ilegal, e vale para restaurantes, bares e casas noturnas. “Diferenciação de preço entre homens e mulheres é uma afronta ao princípio da dignidade da pessoa humana, uma prática comercial abusiva. Utiliza a mulher como estratégia de marketing que a coloca em situação de inferioridade”, diz o texto. E não dá para concordar mais. Um salve para a normativa – que chegou só em 2017, mas chegou. Mais uma batalha vencida, gurias. Agora, é ficar ligada para ver se estão cumprindo – e, a exemplo do universitário de Brasília, isso vale para vocês também, guris!

 

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