Pedro Jansen: ainda vai levar um tempo…

Uma vez abri o Facebook pelas 09h da manhã e lá vinha uma publicação de um amigo, com um trecho de uma música dor de cotovelo e o link para a mesma. O amigo há pouco acabara o casamento, tinha saído de casa, dormido no sofá de amigos e começava aos poucos a colocar a vida nos eixos de novo. Mas, próximos que somos, eu sabia bem que aquele post era sobre a música e não sobre o fim do relacionamento dele. Coisa de gente que lida com a intimidade de modo mais cuidadoso. Comentei, então, entre o provocativo e o consolador: quanto tempo tem que passar até que um post com esse tipo de música seja visto como um post normal e não como uma catarse de fim de relacionamento?

A resposta dele: “não sei”. E quem é que sabe, né?

Arrisco dizer que ninguém. Tem quem diga que o ideal para romper os laços é de fato fazê-lo. Apagar o número do celular, evitar as atualizações nas redes sociais, dar unfollow nesse ou naquele serviço. O problema é que a gente não é tão estóico a esse ponto, então aqui e acolá ainda tem um retorno ao álbum de fotos antigas, a leitura daquele email que apareceu numa busca aleatória, um amigo que marca vocês dois numa publicação… Romper laços – não necessariamente amorosos – é algo que tem se tornado mais e mais difícil, culpa de todas as conexões que fazemos. E dos gatilhos que sempre tivemos para sofrer por amores antigos, claro.

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O grande problema é que não é só dessas coisas que se faz uma ex-relação. Se a vida fosse simples como ignorar uma notificação no Instagram, rapaz, que coisa maravilhosa seria. Conheci alguns casais que tiveram términos sutis e pouco turbulentos. Que se entenderam bem com o fim do amor ou com o fim da vontade de conviver. Que aceitaram o fato de não terem mais no que dar jeito, pelo que lutar. Deram as mãos num último aperto e decidiram: melhor cada um pra um lado. Mas não é só disso que é feito um fim de relacionamento, né?

Pense nas contas que sobram depois que um casamento acaba ou na reforma do apartamento que ficou para trás. Transferir e cancelar planos, pedir reembolso de granas emprestadas, manter contato com os familiares que te cativaram enquanto você esteve com seu parceiro… Tudo isso é capaz de atazanar sua vida, em proporções que vão de “pequena coceira em ponto inacessível nas costas” a “meu travesseiro está pegando fogo”. Isso porque dificilmente a vida espera que a gente resolva como vai o coração e a carga de lembrança que podemos suportar (ou queremos ter contato): ela só acontece, dia após dia.

Com o tempo, vem as reflexões, as mudanças na cor das lembranças, certezas que vão se consolidando. As coisas se sedimentam no peito e tudo vai ficando mais claro. Começam a aparecer os motivos incontestáveis de porque o fim tinha que acontecer. Você também deixa de se importar tanto com o que o seu ex pensa e pede, sim, que ele adquira sua própria conta de Netflix. Você deixa de pensar “Mas não estarei sendo muito mesquinho?”: aqui não é a mesquinhez que tem vez, mas a expressão da sua individualidade e a retomada do fenômeno de ser um só.

Só que leva um tempo…

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