Pedro Jansen: amores entreouvidos

No fim de semana do Dia das Mães, fui a Teresina ficar do ladinho das várias que compõem minha família. Grandessíssima decisão, a minha. Beijos, abraços, carinhos sem ter fim e o clima de reunião familiar que desde o falecimento do meu avô materno, há tantos anos, eu não sentia. E por mais que toda essa experiência pudesse encher páginas e páginas de pensatas e reflexões, é uma conversa “roubada” numa praça de alimentação de shopping que me faz escrever essa coluna.

:: Veja mais colunas de Pedro Jansen
:: Moda, comportamento e vida saudável: conheça outros colunistas de Donna

Aqui, um pedido de desculpas: três dias em Teresina e ainda achei tempo para me trancafiar num shopping? É, tem certas coisas que cidades pequenas só oferecem dentro de um deles, ainda mais no meio da tarde de um sábado. Uma delas é um café legal para tomar depois do almoço. Foi com esse propósito que sentei na praça de alimentação de um dos shoppings da cidade: para tomar um expresso e ler um pouco do livro que tinha levado para a viagem. Ao meu lado, sentavam duas mulheres bem parecidas que julguei sendo mãe e filha. À medida que a conversa delas foi evoluindo, pude ter certeza do laço e o livro foi perdendo a graça. Quem é que quer ler sobre os dessabores de um repórter americano com a máfia japonesa quando a mãe contava à filha que estava namorando um homem casado?

É…. Esse assunto “tenso” foi introduzido pela mãe com todo o cuidado do universo. Dei sorte de começar a ouvir quando o primeiro “mas eu não quero que você pense nada errado sobre mim, por isso te chamei para conversar” foi dito. O relato dava conta do seguinte: a senhora reencontrara um namoradinho de adolescência num sábado qualquer, enquanto fazia compras no supermercado. A colisão de carrinhos gerou não só um pedido de desculpas, mas um convite para uma conversa. Assim fizeram, mas não disse onde nem como. E nessa conversa, como ela também contou para a filha, eles decidiram se ver mais. Ficar mais próximos um do outro.

– Minha filha, quando eu reencontrei o Fulano ali no supermercado, não foi a primeira vez que a gente se encontrou… Há anos, depois que eu me separei do seu pai, encontrei com ele também pela cidade. Passamos um tempo próximos, contamos da vida um do outro, dos momentos que enfrentamos, das histórias…. Ele sempre foi para mim esse ponto de contato que me permitia muito abrir o coração e conversar sobre coisas da minha vida que eu não podia ou não queria conversar com mais ninguém. Fosse com você ou com um terapeuta – dizia.

Eu só ouvia. A filha também, só ouvia. Atenta e por vezes sorridente, mas só ouvia. Parecia claramente querer deixar a mãe falar de peito aberto, sem julgamentos ou interrupções. A impressão que dava era que o mundo inteiro tinha parado para aquela conversa e as duas valorizavam isso demais. Eu também, agora de livro fechado e ouvido atento.

A mãe continuava:

– Desde o encontro anterior eu já sabia que ele era casado e foi por isso que eu me afastei dele. Porque eu não queria me meter na história de ninguém, mesmo que ele me falasse com todas as letras que o casamento dele era um erro no qual ele insistiu a vida inteira para manter. Casou porque a esposa tinha engravidado e ele achou por bem manter a família junta, dar ao filho uma estrutura de família. E acho que, mesmo com toda essa impressão de erro, ele foi feliz com a família e com a esposa. Não era nisso que eu pensava, não queria ele para mim, não quero casar com ele. O Fulano me dá tudo que eu preciso e quero de um relacionamento a essa altura da vida: alguém para conversar, para ver filmes, ficar junto e fazer outras coisas que tu pode pensar aí.

Nesse momento de referência claramente sexual, a filha riu.

– É por isso que a senhora me pede para sair de casa, de vez em quando? -, ela perguntou para a mãe.

– É sim, eu me sentiria muito desconfortável se passássemos a tarde em casa com você lá também, não sei como você se sentiria.

A filha não deu seguimento ao tema sexual, preferiu deixar claro para a mãe que estava tudo bem e que ela não a julgava nem a condenava por nada.

– A senhora tem mais é que fazer pela sua felicidade, mãe, depois de tantos anos vivendo com meu pai -, ela dizia.

A mãe, por sua vez, complementava.

– É…  Eu decidi que me afastar dessa pessoa que me faz tão bem só por ela ser casada era um erro e que eu devia me dar uma chance de ser feliz. Não quero escancarar isso pro mundo, não preciso. Somos só nós dois e que ninguém mais se meta.

Ao ouvir aquilo tudo, senti uma vontade tremenda de ir abraçar as duas, mas principalmente a senhora. Eu sempre advoguei que quem precisa honrar seus compromissos é quem os têm. Quem é casado, noivo, namorado e deve fidelidade a outra pessoa é que deve se preocupar em manter seu relacionamento saudável. Sempre pensei nisso porque acho duma covardia atroz que, diante de uma traição, a terceira parte seja vítima de violência, verbal ou física. É só um desvio do real problema, que o senso comum adora aplaudir.

No fim, não abracei nem disse nada. Só recolhi meu livro, levantei da mesa, sorri cordialmente para as duas, paguei meu café e fui embora. O desejo de que tudo dê certo na vida daquela senhorinha – apaixonada ao modo dela e contraventora do senso comum de modo que a gente conhece tanto – segue.

Leia mais
Comente

Hot no Donna