Pedro Jansen: de carro de som a app, como as declarações de amor mudaram com o tempo

Eu sempre fui muito romântico. Desde criança, quando comecei a escolher no colégio musas anuais que recebiam minha atenção e mimos, sobravam poeminhas, convites para passar o recreio juntos, e declarações de “amor” bobinhas ao pé do ouvido. Nada disso era compreendido e eu passei muita vergonha nessa vida, tomei muito fora (toco e bota, a depender de onde você está lendo essa coluna) e fui motivo de muita piada. Tudo bem, tudo bem: ser compreendido é um luxo que muitas vezes se passa a vida inteira sem experimentar.

Ainda assim, com todo esse romantismo latente no meu serzinho em formação, sempre achei estranhas as declarações em público para muuuuita gente ver. As Loucuras de Amor do Domingo Legal ou aqueles carros de som que começam a irradiar discursos como “neste prédio existe uma pessoa que é muito amada, que é admirada por aquele que a ama e é por isso que estamos aqui hoje” me deixavam nervoso. Desde os meados dos anos 1990, quando passei a ver esse tipo de situação com mais frequência, me sentia dividido: de um lado, “medo” de ver o ultra-romântico sendo rejeitado em público; do outro, receio de um dia vir a ser vítima daquele tipo de situação – pra mim muito mais parecida com um trote do que uma maneira de expressar seu amor. Mas isso sou eu, né? Aposto que deve ter gente por aí que não vê o dia de ganhar uma dessas.

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Até porque, como se vê pelas redes sociais de maneira mais inegável desde os tempos de mIRC (aquele precursor dos comunicadores online como MSN, Gtalk…), achar meios de declarar amor é uma tarefa a qual os apaixonados se dedicam de corpo e alma. Quantos mensagens de quit, scraps e depoimentos não foram pensados e escritos para dizer a outrem que ele é amado e querido? Melhor nem começar a somar. Até porque, os espaços para isso só crescem e se diversificam.

Mas “nem sempre foi assim”, para usar o chavão. “Antigamente”, quando nossos parentes mais velhos começaram a namorar, tudo que eles tinham a mão era um punhado de folhas de papel, uma caneta, um envelope e uns selos. Telefone durante muito tempo foi inacessível e, por outro bocado de tempo, muito caro. Era um tempo em que se tinha que esperar muito pelo romantismo. Em que ele era muito mais projetado que tangível. Não havia como mandar um SMS para o namoradinho para contar das trivialidades do dia a dia, essas coisas que fortalecem tanto os amores e estreitam as relações. Entre uma carta e outra, dada a espera, as notícias envelheciam, a lembrança da voz esmaecia. Namorar a distância era uma provação e tanto. Cartas e mais cartas e, com sorte, telefonemas espaçados e em horários bem específicos para fugir da taxa abusada do DDD (ou quem sabe até um DDI…).

Tudo isso devia provocar uma distorção na noção de “romantismo”: não tenho como esperar do outro a declaração do amor, o cheiro da loção pós-barba, a lembrança da textura da mão dela na minha. Tenho que construir tudo isso eu mesmo: a cada saquinho de pipoca depois da missa, lembrar daquela quermesse; a cada passeio pelo parque, rir dos casais que estão de mãos dadas; no trajeto para o trabalho, respirar fundo sempre que outro moço aparecer com o rosto avermelhado do barbear. As desculpas e invenções para suprir a falta que o outro faz eram muitas e ao gosto do freguês. Como os encontros eram mais raros – até mesmo se os casais moravam na mesma cidade – havia em cada um o instinto de manter e prolongar os sabores, cheiros e delícias dos momentos juntos. Havia em cada um a necessidade de projetar o outro ao nosso lado, como o outro era e o que era capaz de fazer e dizer.

Claro, claro: as pichações no muro da casa da amada ou no caminho dela até a escola/trabalho sempre estiveram aí e é provável que sempre estejam. As declarações em público, os perfis conjuntos nas redes sociais, os carros de som irradiando poemas e músicas do Roberto Carlos também. Hoje temos à mão uma sorte de maneiras de conversar com quem amamos que nem faz muito sentido pensar no veículo. Pode ser até um aplicativo de celular para casais, como o Pair, uma rede social que só funciona entre e para casais. Por ali dá para dividir momentos, compartilhar fotos e até dar beijinhos a distância: uma funcionalidade do aplicativo faz com que os smartphones do casal vibrem sempre que ela é ativada ao mesmo tempo.

E, independente de como se professe o romantismo, que ele continue por ai, arrancando suspiros, beijos, abraços, lágrimas, matando saudades. Àqueles que amam, que coisa bem boa é amar e ser correspondido. Então esconder pra quê?

(E muito obrigado pela sugestão de tema, Mari Gutheil!)

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