Pequenos diálogos, grandes preconceitos

– Sabe a Ana, aquela colega que trabalhou com a gente lá na sede do Centro, no ano passado?
– Sei, o que tem ela?
– Pediu demissão. Diz que vai ficar em casa porque quer acompanhar o crescimento dos filhos, pelo menos nos primeiros anos.
– Ah, coitada. Que judiação! Tão inteligente, podia ter um belo futuro!
– Só pode ser o marido que exigiu que ela virasse dona de casa. Estudou tanto pra nada…

 
– Menina, você nem sabe o que eu descobri.
– Conta logo.
– Lembra do Maurício, meu vizinho no prédio velho?
– Aquele lindo, com covinha no queixo? Nossa, que h-o-m-e-m é aquele????
– Pois então. Não é.
– Como assim?
– Fiquei sabendo que ele está morando com outro cara, vê se pode.
-Ah, não acredito! Que desperdício! Deveria haver uma lei que impedisse os caras bonitos de serem gays. Com tanta falta de homem no mercado…
 

– Tenho uma boa pra te contar. Lembra da Fátima, que morava no 303?
– Aquela gorda?
– Essa mesma. Ela tá frequentando a minha academia.
– Que bom, quem sabe assim emagrece um pouquinho.
– Mas você precisava ver o jeito dela. Acredita que ela vai de calça legging branca e camiseta justinha? Dá pra ver todos os buraquinhos de celulite que ela tem nas coxas.
– Credo, que horror. Tem gente que não se toca mesmo.

– Hoje a Alzirinha me apresentou o novo namorado. Você precisava ver.
– O que foi?
– Parece filho dela. Muito mais novo, e bem bonitinho.
– Ah é, e o que será que ele viu nela?
– Vai se saber! Deve ser o dinheiro. Só pode!
– Se eu tivesse a grana dela também arrumava namorado novinho…
 

Quatro historinhas verdadeiras. O que elas têm em comum? Todas ressaltam algum tipo de preconceito – aquele mesmo que, quando alguém toca no assunto, a primeira coisa que a gente diz é “graças a Deus eu não sou preconceituoso…”. Ah, somos. Uns mais, outros menos. Queremos não ser, é verdade. Sabemos que todos têm direitos iguais – o feio, o bonito, o gordo, o magro, o heterossexual, o homossexual, o deficiente, o sem deficiência, o velho, o jovem, a criança, o pobre, o rico, o remediado. Mas entre o saber e o agir há uma grande diferença. Ainda temos muito o que evoluir.

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