Piangers: Casa de Anita

(Reprodução/Instagram)
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Lá em casa temos um quadro com a imagem da casa da Anita Garibaldi, comprado em uma viagem que fiz com a minha filha, Anita, até Laguna. Estávamos apenas nós dois, ela com uns cinco anos, e visitamos o museu que mostra como era o quarto, a sala e a cozinha da casa da homônima da minha filha. “Onde está ela?”, a Anita perguntou. Seria a primeira vez que eu falaria sobre a morte para a minha filha. “Ela está na outra casa dela, na Itália”, respondi. Passei o resto da viagem explicando pra minha filha o que era a Itália. Muito mais fácil do que explicar o que é a morte.

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O e-mail da minha esposa traz o nome da Anita. Minha senha do banco tem o nome dela. O nome do arquivo em que escrevo todas as minhas memórias de pai se chama Anita.doc. Foi, portanto, um choque quando outra pessoa chegou lá em casa, destituindo do trono nossa pequena rainha.

Quando a Aurora nasceu, depois de um tempinho no hospital, chegamos em casa naquela confusão de mala e bolsa e bebê-conforto e mantinha, e a Aurora dormia e a colocamos no quarto e fechamos a porta. E eu estava angustiado e não sabia o motivo. E minha mulher estava angustiada e não sabia o motivo. E nos olhamos e começamos a chorar de uma tristeza meio inexplicável. Era uma pena da Anita. Será que estávamos sendo justos com nossa primeira filha?

A Anita sempre foi doce com a irmã. Sinto que, lá no fundinho, doeu um pouco nela, como doeu na gente. E sinto que ela lamenta toda vez que eu durmo abraçado com a Aurora, toda vez que eu brinco de dar beijo na barriga da Aurora, toda vez que tiro a Aurora do banho enrolada na toalha, fingindo que ela é um pequeno bebê. Deve dar uma dorzinha nela, como dá em mim quando penso na dor que ela sente.

Respiro fundo. Digo que a amo. Tiro um dia por semana pra almoçarmos só eu e a Anita. Temos um tempo só nosso, uma declaração de amor, um esforço pra que ela saiba que é importante. Comemos devagar. Lembramos do tempo em que viajávamos sozinhos. Passeamos pela cidade. Tomamos sorvete. Andamos de mãos dadas.

Ela está crescendo. Cada polegada me distância um pouco. Não sei como é ter uma filha adolescente. Tenho medo de que seja como atravessar um rio revolto, esperando chegar do outro lado intacto. Ainda seremos melhores amigos? Sei que um dia ela vai andar de mãos dadas com outra pessoa. Desta vez, serei eu um rei destituído do trono.

Será justíssimo.

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