Piangers: “Achava estranho ver minha mãe beijando seu namorado”

Foto: Pexels
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Quando minha mãe começou a namorar depois de idade avançada, confesso que fiquei apreensivo. Minha mãe nasceu há algum tempo – sei o ano exato, mas a matemática não fecha: desde que fez 52 anos, esta é a idade que ela tem, pra sempre. Uma idade que considero justa. Espero alcançá-la e, se o acaso quiser, um dia teremos nós dois 52 anos (eu de verdade, ela na idade que acredita ter). Não percebo minha mãe envelhecendo, a não ser que compare sua formosura atual com fotos de 10 anos atrás. Há 10 anos, minha mãe tirava fotos daquelas bregas, em estúdio, deitada no chão com as pernas pra cima. É esse tipo de sensualidade que deve ter conquistado seu namorado alguns anos mais velho.

Acho que todas as pessoas têm o direito de se enamorarem com qualquer idade, porém sinto um certo desconforto ao ver minha mãe beijando um senhor molhadamente. Minha filha pré-adolescente também faz “blergh” quando vê eu e minha esposa nos beijando, mas não é isto que sinto ao ver um casal de pessoas idosas se beijando. Não é o tipo de amor que estamos acostumados a ver por aí, em filmes e coisa e tal. Os casais da ficção são jovens de pele lisa e beijos encaixados, não essa atrapalhação da vida real. Nunca vi uma cena de filme onde uma dentadura escorrega no meio de uma cena de amor. Deve existir, mas nunca vi. Então, achava estranho ver minha mãe beijando seu namorado. Jamais consegui imaginar o que faziam quando eu não estava presente. Tenho certeza de que apenas jogavam cartas.

Abre parênteses. Um fato curioso que sempre conto para amigos é que uma vez fui fazer uma reportagem no maior baile da terceira idade de Santa Catarina. Naquele simples e espaçoso pavilhão, jovens de mais de 60 anos dançavam todos os sábados e, me disse o proprietário do lugar, saíam em casais para o motel mais próximo. “É o advento da pílula azul”, me disse o gerente, se referindo a vocês sabem o quê. Percebi no escritório da boate um grande pote de vidro cheio de dentaduras. “O que é aquilo?”, perguntei. “Nossa sessão de achados e perdidos”, respondeu o gerente. Fecha parênteses.

Minha mãe não está mais namorando. Está feliz da vida fazendo o que quer na hora que quer. Nosso ideal de velhice romântica são dois velhinhos andando por aí de mãos dadas, mas minha mãe não parece querer isso pra ela. Passeia pela praia numa quarta-feira à tarde, mandando fotos de tainhas fritas para o grupo da família. Posta fotos bebendo cerveja com a infame legenda: “Abrindo os trabalhos”. Uma jovem de eternos 52 anos. Diz que tem pretendentes, de vez em quando acho que sai com “ficantes”. Não sei o que fazem depois dos jantares. Certamente jogam cartas.

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