Piangers: Avós

Foto: Pixabay, reprodução
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Minha vó servia pão de trigo aberto com as mãos, sem faca, lambuzado de geleia de pera, que ela mesma fazia no quintal detrás da casa. Por trás dos óculos enormes, com aqueles quadradinhos estranhos na parte de baixo provavelmente pra ajudar a ler, ela olhava empolgada os nove primos sentados, misturando farelos e restos de lama embaixo das unhas e geleia de pera por toda a cara. Ela perguntava:

– Está boa a chimia?

Todos os primos respondiam ao mesmo tempo: “Sim!”, menos o Timóteo, meu primo gordinho, que quando estava comendo parecia estar numa missão sagrada de se agarrar no alimento e empurrá-lo goela abaixo. A matriarca fazia outra pergunta retórica:

– Então, a ‘chimia da fó’ é melhor que a chimia Fritz e Frida?

Todos em uníssono (menos Timóteo): “Sim!”. Então ela concluía:

– Então, a ‘chimia da fó’ é a melhor chimia do mundo. Porque dizem que a Fritz e Frida é a melhor chimia do mundo e a chimia da fó é melhor que a Fritz e Frida.

A manipulação psicológica dos meus avós nos levava a outras situações semelhantes. Meu vô sempre defendeu que a pipoca doce que ele fazia era a melhor pipoca doce do mundo. Anos depois, eu ainda lembrava do cheiro e do sabor daquela pipoca suave. Meu vô também abominava cervejas muito geladas. Deixava a geladeira com potência bem baixinha (dava a desculpa das cervejas, mas provavelmente era pra economizar dinheiro na conta de luz). O fato é que tomei uma Kaiser da geladeira dele, num domingo infernal, e estava surpreendentemente deliciosa.

Ele gostava de repetir o tempo todo as seguintes histórias: como construiu duas casas e uma garagem com as próprias mãos; como eram edificações tão bem construídas que estão de pé até hoje; como foi astuto nas negociações para comprar os terrenos; como era honesto na época que cortava cabelos no centro da cidade (se não apareciam clientes ele colocava cinco reais do próprio bolso pro chefe não pensar que ele estava roubando). Na época em que foi caminhoneiro, ele dirigia o melhor caminhão do mundo e conheceu o Brasil todo com o barulho do motor de trilha sonora. Por isso, explicava ele, tinha um zumbido constante no ouvido direito e fazia concha com a mão do lado da cabeça na hora de assistir ao “noticioso do 12”.

Meu vô morreu dia 15 de abril de 2012, às 19h, de desistência múltipla de planos. Ele completaria 93 anos 14 dias depois. Enterrinho bem deprimente numa gaveta logo abaixo de um outro morto chamado Romário. Número 665 do cemitério de Novo Hamburgo. Imaginem o susto da família que enterrou o próximo defunto na gaveta 666.

Voltamos pra casa dele, paredes incrivelmente bem construídas, sentamos ao redor da velha mesa pra beber as últimas cervejas quentes do vô, comer as últimas laranjas do quintal, estourar os últimos milhos para pipoca. Minha mãe trouxe uns biscoitos de manteiga feitos na casa dela. Tirou da bolsa, ofereceu pros primos, ótimo acompanhamento pro chimarrão.

Todos comemos. O Timóteo com o vigor habitual. Então, minha mãe perguntou:

– Estão bons os biscoitos?

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