Piangers: A cada passo, nossos filhos dizem adeus

Foto: Pexels, reprodução
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A Aurora está aprendendo a ler e a escrever. Os fonemas ainda são literais, te amo ainda é ti amu, mas luto pra que este estilo de escrita, tão comum entre os jovens de hoje em dia, evolua quando ela não tiver mais cinco anos. Gramática, matéria escolar ignorada por jovens com nove letras.

Cada pequena evolução infantil nos emociona, como naquelas propagandas em que o pai segura a filha na bicicleta sem rodinhas até que ela consiga pedalar sozinha. O pai comemora em câmera lenta enquanto a filha se afasta feliz. Estou empolgado com esta fase, incentivando a leitura e a escrita. Brincamos juntos de fazer palavras cruzadas e assim ela vai treinando a construção das sílabas. Um desenho de um quadrado amarelo com um telhado. “CAAAA… SA…”, ela pronuncia enquanto escreve. O desenho de um pisante de couro preto. “TE…NISSSS”, ela escreve deixando sobrar um quadradinho. Era sapato.

Incrível, soberbo, magistral. Com onze letras. Ela tem alguma dificuldade e lê apenas o que está escrito em caixa alta, mas se esforça e todas as manhãs quando vamos até a escola ela vai lendo as placas ao redor. “PAAAAA…RE”, diz olhando para uma placa. “ES…GO…TO”, lê no bueiro da rua. Nossa caminhada diária até a escola demora longos minutos, mas cada sílaba é celebrada. Não consigo não sorrir. “Parabéns!”, grito ao fim de cada palavra, batendo palminhas. Não estou querendo dizer que ela é genial ou algo assim. Ela não é brilhante, tenho certeza. Demorou para conseguir pronunciar o erre, recorta com a boca aberta, tem dificuldades matemáticas. Mas está aprendendo a ler e se isso não é maravilhoso não sei o que é.

Saudação de despedida com cinco letras. Nossos filhos estão sempre nos dizendo adeus. Quando aprendem a caminhar, estão nos dizendo o primeiro adeus. Depois, quando aprendem a falar. Depois, quando aprendem a caminhar. Agora a ler. Depois quando estudam sozinhos. Depois quando escolhem uma profissão. Depois quando arrumam emprego. Passam os anos nos dizendo pequenos “tchaus”, ganhando autonomia. Estaremos batendo palminhas em cada um desses momentos, felizes por eles. Viva! Você conseguiu! Até que dirão o adeus mais dolorido. Formarão suas famílias. Sentiremos falta de suas limitações. Das vezes que nos pediam ajuda. Torceremos por uma ligação no domingo. Sentaremos no sofá, fazendo palavras cruzadas. Sentimento de falta de alguém, com sete letras.

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