Piangers: Coisa mais comum do mundo

Estamos na capa desta revista Donna, eu e minha mulher, e imagino que você tenha percebido isso com alguma estranheza. Não somos um casal estonteante, nem rico, nem famoso. Somos um casal comum, com filhas comuns, escrevendo livros sobre histórias comuns. Livros comuns com os quais milhares de pessoas comuns se identificam. Num certo sentido, são diversos casais comuns nessa capa de revista. O comum é o novo extraordinário.

Foi assim que aconteceu: a Patrícia Rocha, editora da revista, propôs a matéria e a gente topou. Veio um pessoal simpático aqui em casa, fotógrafo, editora, maquiadora, assistente. Fiz café pra eles. As meninas estavam pouco dispostas porque era de manhã e aquilo fugia da rotina. Você verá as fotografias que ilustram a reportagem e achará que somos uma família ideal, porque são assim as revistas, novelas, blogs e fotos de Instagram: fazem a gente acreditar que a vida dos outros é melhor do que a nossa. A parte feia desaparece na maquiagem, na edição, no filtro. Fica só a família fofa, em uma capa bonita pacas. Mas garanto que foi uma quinta-feira bem comum, quando fizemos as fotos em nosso apartamento comum e demos a entrevista sentados em nosso sofá comum, cheio de manchas de comidas que foram derrubadas ao longo dos anos.

Foto: Mateus Bruxel

Foto: Mateus Bruxel

E agora, além da capa e reportagem principal, ainda tem essa coluna aqui. Estou escrevendo um dia depois do prazo pra entregar a coluna. A Camila Saccomori já está me cobrando o texto por e-mail. Ela sempre me cobra as colunas com e-mails que trazem o seguinte assunto: “Não esqueça da minha Caloi”. Camila, isso denuncia a sua idade! E a minha, já que eu entendo exatamente o que você quer dizer. Demorei a escrever porque acho que é Piangers demais nesta revista, as pessoas vão achar que estamos posando de casal perfeito na capa da revista. Mas somos um casal dos mais comuns. Nossa cozinha está uma zona. Nossa máquina de lavar vaza. Nossa internet é uma porcaria. Como podem ver, comum, comum, comum.

Todos os dias eu não sei se estou educando as minhas filhas de uma maneira correta. Todos os dias penso em parar de escrever sobre a família. Todos os dias tenho medo de ser mal interpretado, de expor minhas pequenas. Todos os dias eu e a minha mulher brigamos pelas coisas mais idiotas. Muito comum. Durante a sessão de fotos, minha filha mais velha não colaborava, ficava se escondendo da câmera, e tive que ser duro com ela. Isso não vai aparecer na matéria. Nossas crianças são comuns. Eu e a Ana também. Cheios de problemas, sofá sujo de sopa, tarefa escolar atrasada. Cheios de inseguranças, filho que pula banho, livros que nunca vamos conseguir ler. Cheios de medo, de louça pra lavar, de coluna entregue em cima do prazo. Desculpa, Camila, pela coluna atrasada. Vamos torcer pra que isso não vire uma coisa comum.

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