Piangers: Como a gente quer que nossos filhos se expressem com clareza se a gente mesmo não se expressa?

Foto: Pexels
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Eu estava sentado ao lado da minha filha de 11 anos na sala do cinema pra assistir à estreia de Divertidamente, aquele filme da Pixar que se passa dentro de uma menina de 11 anos, morena de olhos grandes, igualzinha à minha filha. No filme, a menina passa pelo furacão que é a pré-adolescência: tristeza por ter mudado de cidade, raiva dos pais, medo do ridículo, nojo da casa nova. As emoções que governam essa mesa de comando dentro do nosso corpo. Mais a alegria, que passa o filme todo tentando salvar memórias boas da menina. Minha filha gostou do filme, mas posso garantir que teria gostado muito mais se não tivesse que passar a sessão inteira me pedindo para parar de chorar. “Pai, por que você está chorando tanto com esse filme?”, ela me perguntava. “Não sei!”, eu respondia. Mas é claro que eu sabia.

Eu estava chorando porque estava vendo na tela minha filha com tristezas diversas, raivas secretas, medo do mundo. Eu estava vendo minha filha como um ser humano, não mais como aquela menininha que a gente cuidou até então.

A gente cuida do nosso filho por um tempo e por um tempo ele é uma mistura do pai e da mãe, alguma coisa de avó. Mas chega uma hora em que vai aparecendo outra coisa. Vai aparecendo ele mesmo. Aquele ali é nosso filho virando gente. Nosso filho virando gente grande. E dá medo porque eu conheço um monte de crianças legais, mas gente grande legal conheço só uma dúzia.

Porque gente grande tem todos esses sentimentos escondidos. A gente aprendeu a ser fingido: guardar raiva, nojo, tristeza e medo. Expressar alegria apenas de vez em quando. Que se não descobrem que a gente está feliz demais. E isso pode ser usado contra a gente. E ser vulnerável é ser fraco. Eu sou forte. Eu não sinto nada.

Como a gente quer que nossos filhos se expressem com clareza se a gente mesmo não se expressa? Se a gente mesmo não sabe o que sente? Ao longo da vida somos levados a esconder os nossos sentimentos, e de tanto esconder vamos esquecendo o que sentimos. Isso é raiva ou frustração? Isso é impaciência ou infelicidade? Isso é euforia ou alegria? Isso é amor por outra pessoa ou só por mim mesmo?

Acho que é por isso que eu chorava no escuro do cinema. Porque via minha filha crescendo, aquela menininha que expressa todos os sentimentos, meio sem filtro, logo vai estar guardando as emoções, misturando os sentimentos, confundindo tudo. Como o pai, vai precisar de muita terapia. E de alguns filmes da Pixar, pra chorar escondida no cinema.

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