Piangers: De repente, idoso

(Foto: Pixabay)
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Estou ficando velho. Se as estatísticas estiverem certas devo estar no meio do tempo que tenho por aqui. Minha testa cada vez maior. Talvez por tudo isso, começo a entender por que o mundo é assim. É porque nós, velhos, temos preguiça de mudar as coisas. Você vai ficando velho e vai percebendo o valor do final de semana. O “eu” jovem trabalharia sete dias por semana e sairia com amigos todos os sete dias para beber incontáveis cervejas. Diferente deste senhor aqui, que escreve essas linhas. Este aqui não consegue tomar duas latinhas sem acordar com azia no dia seguinte.

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Você nota que está velho quando começa a repetir o restaurante. Jovens querem sempre um lugar novo. Você vai ficando velho e vai gostando de um estabelecimento (velhos usam a palavra estabelecimento), da comida que é sempre confiável, daquele garçom que já sabe que a caipirinha não pode ter tanto açúcar. Quando você vê, ficou velho. Todo domingo está no mesmo restaurante.

Fiquei velho no momento em que lançaram o Snapchat. Aquele negócio não tem botão nenhum, não explica pra gente como usar. Todas as crianças mexem naquilo com desenvoltura, mandam fotos indecentes que se autodestroem em cinco segundos. Que terror é, para um velho, uma mensagem que desaparece em cinco segundos. Não dá tempo de pegar os óculos. Eu parei de entrar em redes sociais depois do Snapchat. A partir de agora tudo vai ser muito difícil pra mim.

Sou da época dos botões. Olhem quantos botões temos à nossa volta. Velhos adoram botões. Botão para abrir a janela do carro, para sair água da torneira, botão do interfone, do controle de abrir o portão de casa. Até para abrir a porta do banco substituíram a (até então prática) maçaneta por um botão. Por isso, nós, velhos, adoramos ir ao banco. Mas andaram substituindo os botões por sensores de movimento. Você tem que ficar se balançando na frente da máquina que entrega o papel de secar as mãos. Tem que agitar os braços na frente da porta que abre automaticamente. Sensores de movimento, além de nunca funcionarem bem, fazem a gente parecer um idiota.

Por isso jovens não têm problema com esse tipo de coisa. Eles estão acostumados. São os jovens que têm que mudar o mundo. Não vamos ser nós, os idosos. Nós acalmamos a alma, formamos família, queremos passar tempo com os filhos porque percebemos que isto é o que realmente importa nesse curtíssimo período de tempo que passamos aqui. Jovens acham que podem mudar tudo o que está errado no mundo. E só os que acreditam nesse absurdo é que podem, de fato, conseguir.

Tudo o que você precisa na vida é de ignorância e confiança, e então o sucesso é garantido, disse Mark Twain. É quase a definição perfeita do que é ser jovem. Está aí um velho bigodudo que sabia das coisas.

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