Piangers: É preciso reaprender o que é ser homem

Foto: Pexels, divulgação
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Sempre achei que existe um contrato social quebrado entre homens e mulheres, uma guerra não declarada disfarçada de romantismo. Como fui criado por mãe solteira, universo feminino bem presente, sempre tive apreço pela gentileza e a sensibilidade. Mas crescendo percebi que isso é sinal de fraqueza para homens, aqueles clichês todos de homem não chora, homem não diz eu te amo na frente dos amigos, homem tem que ter pegada, tem que chegar chegando, homem, quando descobre que vai ser pai, a vida dele acabou.

Eu escrevo essas coisas imaginando alguns homens dizerem: “Em que mundo você vive, essa conversa é antiga, isso não acontece hoje em dia”. Gostaria muito de viver nesse novo mundo, onde homens são sensíveis e amorosos, mas quanto mais conheço pessoas mais percebo contradições. A remota possibilidade de trair a esposa ou namorada é tratada com louvor e admiração no meio masculino. Mulheres bonitas passam, e os homens se cutucam. Os grupos de WhatsApp são intencionalmente podres – quem manda o vídeo mais podre é mais homem. As piadas, os piores comentários são os mais engraçados. O homem que está enganando a esposa é um herói. Até os mais corretos, homens de família com fotos dos filhos no Facebook, não conseguem escapar desse incentivo constante à traição, à malandragem, aos segredos.

Somos incentivados uns pelos outros a, perversamente, reafirmarmos nossa falta de sensibilidade. Matar animais quando crianças, bater nos coleguinhas no colégio, reafirmar nossa aversão aos homossexuais quando adolescentes, demonstrar nossa falta de interesse na monogamia quando adultos. Quando confrontados com essa realidade, temos três argumentos: um homem que traz essas questões à tona é um traidor mau-caráter; a poligamia é um comportamento natural e ancestral e está errado o homem que ousa evoluir; as mulheres também são muito promíscuas, e, se elas não quisessem, não seríamos tão cafajestes. São todos argumentos que me soam como desculpas, como motivos para não mudar e deixar as coisas como estão.

Gostamos de imaginar que um homem que assedia uma mulher é um doente, mas me parece que é um doente incentivado por um pensamento comum constante.

A televisão e o cinema reproduzem esse senso comum, a gostosona é burra, o homem de verdade é o que pega à força, passar a mão é um elogio à beleza. As músicas mais populares dizem que a novinha quer mesmo é ser violentada, que crianças são objeto de desejo, que meninas que bebem merecem ser abusadas. A mensagem é repetida tantas vezes nos bares, grupos de WhatsApp, rádio, TV, cinema e jornal: as mulheres não têm valor, estão aqui para servir aos homens e, se reclamarem, são loucas e desequilibradas.

A guerra entre homens e mulheres não está começando agora, ela sempre existiu. O que as mulheres se esforçam para ter agora é uma trégua. Precisamos ouvir, aprender, evoluir. Parar o ataque. Reaprender o que é ser homem.

 

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