Piangers: Enquanto você pulava Carnaval…

Foto: Mateus Bruxel / Agência RBS
Foto: Mateus Bruxel / Agência RBS

Enquanto vocês se esbaldavam na avenida e nos bloquinhos de Carnaval, amassando-se uns nos outros com seus corpos bêbados e suados em calçadas sujas de xixi e vômito, reencontrando amores do passado e iniciando casos tórridos com desconhecidos, acordando às três da tarde e indo dormir com o céu claro de um sol escaldante, fantasiando-se de marinheiros e diabas, travestindo-se e experimentando mãos e coxas e bocas das mais variadas origens, enquanto vocês se refestelavam ao som estridente dos hits do sucesso radiofônico e derramavam bebida alcoólica nos corpos uns dos outros, enquanto compravam cerveja barata de ambulantes carregando isopores cheios de gelo em meio à multidão e procuravam banheiros químicos em pleno meio-dia, enquanto vocês esqueciam-se de almoçar e jantar e tomar café da manhã e ignoravam orgulhosamente o conselho de suas mães de levarem um casaquinho e não pegarem chuva, enquanto dormiam na grama na frente da casa de praia dos amigos porque as camas e os quartos estavam todos ocupados por visitas inesperadas, homens musculosos e meninas com tatuagens de golfinho no pé, enquanto os apartamentos do centro da cidade recebiam festas alternativas onde se usavam drogas ilícitas e o som alto não incomodava os vizinhos que estavam assistindo aos desfiles das escolas de samba no último volume enquanto tomavam licor de chocolate em copos de plásticos, enquanto vocês terminavam namoros incentivados por um impulso alcóolico e um desejo ardente de experimentar a vida acreditando que existe algo mais, algo mais emocionante, mais excitante, um sentimento de alegria e satisfação plena que só pode ser conseguido com saltos no desconhecido, enquanto vocês choravam decepções amorosas em festas onde pagaram um salário mínimo no ingresso e eram incentivados pelos amigos a esquecerem aquele que parecia ser seu grande amor, enquanto conheciam salivas de Pernambuco, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, enquanto vocês bebiam vodka com energético para aguentarem a terceira noite seguida em claro e dirigiam em alta velocidade com a imprudência de quem está desesperado pra se sentir vivo e enquanto tinham seus celulares roubados no meio da rua por gangues que fazem isso há anos e nunca são pegas pela polícia e quando são apenas os celulares de modelos mais antigos são recuperados, enquanto você tentava um último convite para uma última festa onde aquela última pessoa também estaria, enquanto vocês tomavam banho acompanhados, entravam em piscinas de casas de desconhecidos, vomitavam em táxis e ubers e ônibus e carros de amigos e enquanto rasgavam preservativos e certidões de casamento, enquanto pegavam doenças venéreas e questionavam-se sobre feridas que lhes apareciam nos lábios, enquanto vocês não percebiam mau hálito e cheiro de sovaco e ouviam música alta em caixas de som portáteis falsificadas e de formato cúbico, enquanto namoros, casos e separações começavam eu estava em casa assistindo a episódios de seriados disponíveis em serviços de streamings e sorrindo, feliz por vocês e por mim.

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