Piangers: Essas senhoras, as avós, não entendem que as coisas mudaram

Foto: Pexels
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Não faz muito tempo eu e minha esposa resolvemos viajar pela primeira vez sem as crianças, decisão que nos tomou tempo e discussões. As meninas teriam que ficar com as avós, e nosso medo era que de que as senhorinhas não dessem conta do recado. Que elas não soubessem alimentar direito nossas filhas. Que perdessem o horário da aula de natação. Que permitissem assistir televisão demais. Que dessem bolacha e suco artificial de jantar, algo que as duas fizeram comigo e minha esposa quando éramos crianças nos anos 80.

Essas senhoras, as avós, não entendem que as coisas mudaram. Na época que nos educaram o mundo era outro, menos violento e mais permissivo. Minha mãe tinha um Fusca e permitia que eu viajasse no vão atrás do banco de trás do carro, sem cinto e muito menos cadeirinha. Minha esposa conta que sua mãe permitia que ela saísse de casa depois do almoço e só voltasse às nove horas da noite, com a roupa suja e o joelho ralado. Imaginem isso acontecendo hoje em dia! Prendam estas senhoras!

Por isso nossa preocupação. Dizem que o trabalho dos avós é destruir todo o trabalho dos pais, e isso seria inadmissível. Levamos meses para que a minha filha de 12 anos se interessasse por matemática, através de um canal do YouTube que é engraçado e informativo ao mesmo tempo. Nossa filha de cinco anos está comendo um prato inteiro de comida no almoço, basta darmos as colheradas uma a uma na boca. Imagina estragar tudo isso deixando as meninas com as avós.

Durante a viagem imaginamos as avós permitindo tudo, comida em cima da cama e pular corda no meio da sala. Imaginei minha filha pequena indo sozinha à padaria. Meu deus! As avós não sabem como é o mundo hoje, cheio de perigos e gente má. Nos anos 80, a última década em que minha mãe cuidou de uma criança, era normal as pessoas fumarem. Só o que me falta a vovó oferecer um Marlboro pra minha filha mais velha!

O que fizemos! Precisamos voltar desta viagem!

As duas avós se revezaram para cuidar das netas. Quando chegamos em casa, preocupados, minha filha mais velha veio correndo nos receber: “Olha o que a vovó me deu”, nos disse. Era um ábaco. “Agora consigo fazer qualquer conta!”. A mais nova já dormia. Minha mãe me disse que ela agora come um prato inteiro de comida sozinha. “Sem aviãozinho?”, perguntei. “Sem aviãozinho. E escova os dentes e dorme sozinha na cama dela”, respondeu a vó.

Seguiram-se semanas em que as meninas dormiam em suas próprias camas, sempre no horário apropriado. Comiam sozinhas. Liam livros e não assistiam desenhos. Tudo muito estranho e organizado. Depois de um tempo de convivência elas deram uma piorada, é verdade. É o que dizem: trabalho de pai é destruir todo o trabalho dos avós.

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