Piangers: Incentivar a sexualização da criança é roubar um pouco de sua infância

Documentário The Boy in the Dress | Foto: BBC, reprodução
Documentário The Boy in the Dress | Foto: BBC, reprodução

O Gabriel é um amigo da minha filha de cinco anos que adora usar vestido de menina. Você está pensando o mesmo que eu, quando conheci o garoto: o Gabriel é gay.

Mas, lembre-se, o Gabriel tem só cinco anos de idade. Ele não sabe o que é uma orientação homoafetiva, não sabe o que é sexo, não tem a consciência da malícia do nosso pensamento (meu e seu). Quando perguntei por que ele gostava de colocar aquela roupa, ele me disse: “É bom de correr”. E saiu em disparada, de vestido, atrás de uma bola de futebol.

É uma imagem desconcertante, um menino de vestido correndo atrás de uma bola. O Gabriel não tem nenhuma indicação de delicadeza, ele entra nas jogadas com força, discute com outros meninos com valentia. Quero dizer, está mais para Felipe Melo do que pra Kaká, não fosse pelo vestido não teríamos nenhum sinal de raios desmasculinizantes. Mas o Gabriel gosta de correr de vestido, acha mais confortável. E o pai dele de canto não sabe se fica puto da cara ou se aplaude as jogadas do filho.

Lembro da minha infância. Existia um patrulhamento antigay constante. Pais não permitiam filhos usando rosa, brincando de bonecas, brincando de maquiagem, fazendo balé. Esse terror dos pais passava pras crianças, e estávamos o tempo todo avaliando os amigos, fazendo piadas de duplo sentido, sugerindo a homossexualidade dos outros, como se houvesse algo de errado com isso. Deus nos livre alguém nos confundir com gays! Alguém supor que somos sensíveis!

Alguns de nós, certamente, se descobriram gays, apesar de toda a pressão inversa. Outros, imagino, incorporaram o ódio e se tornaram homofóbicos.

Quem sexualiza nossas crianças somos nós, conhecedores do bem e do mal. Batemos nas costas de meninos de dois anos, às vezes mais novos ainda, e dizemos: “Esse vai ser pegador! Esse vai ser garanhão!”. E não entendemos quando nossos jovens têm filho cedo demais. Não entendemos quando nossos garotos são violentos com as meninas, querem pegar à força as garotas nas festas. Não entendemos quando maridos traem as esposas. “Esse vai ser pegador!” Uma espécie de deseducação que jogamos em nossos meninos desde cedo.

Ninguém diz para o filho: “Esse vai ser um pai de família”. Esse vai ser honesto. Esse vai ser gentil. Esse vai tratar bem as mulheres, esse vai ajudar o próximo. Acredito que faria toda diferença. Incentivar a sexualização da criança é roubar um pouco de sua infância. Nossos filhos não vão ser menos homens se não pegarem beijos à força das meninas da creche. Nossos filhos não serão gays se usarem vestidos. Nossos filhos não serão afeminados se brincarem de boneca ou casinha. Nossos filhos serão crianças. E, quem sabe um dia, adultos melhores que nós.

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