Piangers: Estou tentando ser bom

Pelo raio-x do aeroporto, cinto, moedas, nada nos bolsos senhor, celular, e a funcionária da Infraero reclamava com a colega que estava há horas trabalhando e daria qualquer coisa por um pão de queijo. Pega mala, mochila, bota cinto, celular, passei no barzinho da sala de embarque, café pra mim e um pão de queijo pra moça, uns R$ 60, que tudo no aeroporto é de ouro, mas dourado mesmo ficaram os olhos daquela menina quando lhe dei o pão de queijo quentinho. Não acredito, você ouviu o que eu disse, muito obrigada moço, ganhei o dia.

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Já fui babaca pacas, fiz piada machista, preconceituosa, que diminuía geral. Mas rolou uma luz, Saulo de Tarso a caminho de Damasco, um lance que ficar só ironizando tudo não ia deixar o mundo melhor. Pulei pro lado da good vibe, equilíbrio de karma, bora tentar ser gentil. Pessoal me manda e-mail desacreditando que vou responder um por um, às vezes demoro mas respondo todos, sempre com “muito obrigado pela mensagem e seja feliz com a sua família”. Sempre escrevo um nome de filho, uma referência à história da pessoa, para ela saber que não é um e-mail automático. Curto toda foto em que me marcam no Instagram e no Facebook, tento sempre comentar com uma carinha sorrindo. Esses dias, descobri que tem umas mensagens escondidas na caixa de entrada, peço desculpas se não respondi a alguém. Não tenho como voltar nas mais de mil mensagens agora, mas a partir de hoje respondo, demoro mas respondo.

De quatro em quatro meses, o pessoal do Mãe de Deus me recebe com sorrisão no rosto. Tem o Fabrício, que trabalha no turno inverso em outro hospital cuidando de crianças com problemas cardíacos, imagina a vibe foda do pico. Mas, de manhã, ele está no maior astral tirando doação de sangue, hemoglobina bombando, diacho da agulha, papo bom e a TV sempre na Record. Tem bolacha e suco pra depois. O legal de estar doando dinheiro pra instituições de caridade é levar minhas filhas junto. A Aurora estava sempre naquelas de quero colo tô cansada, mas, depois que viu a garotada da AACD, fazendo fisioterapia _ o sonho deles é andar direitinho que nem a Aurora _, agora ela vai pedir colo e já meio que se arrepende, lembra que é uma afortunada. Está andando mais que o Forest Gump.

Fui fazer uma matéria para Fátima Bernardes com a Ariadna, uma menina que nasceu menino, que namora o Edrik, um menino que nasceu menina, tentei ser o mais respeitoso possível. “Estou usando os termos certos?”, “me desculpem a pergunta mas…”, “posso falar isso sem problemas?” e etecétera, já que eu não sou do meio transgênero e queria respeitar a parada. Estou sempre perguntando para mulheres o jeito certo de falar sobre feminismo, para negros o que é racismo. Esses dias, descobri que o termo certo para deficientes visuais é cego mesmo e fiquei até feliz que simplificou. Aprendi umas palavras em Libras, pra ser atencioso com surdos-mudos que vão às minhas palestras. Estou tentando ser bom com as pessoas. Às vezes, a bondade volta e quando não volta não faz mal, vamo que vamo que está tudo beleza e daqui a pouco é verão.

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