Piangers: “Eu adoro a minha mãe. Ela é de ferro”

Queria dizer que eu e minha mãe gostamos da Martha Medeiros. Uma vez troquei e-mails com ela e lembro de ficar nervoso quando ela me respondia. É um nervosismo em duas vezes, primeiro: “Ela respondeu!”; e depois: “Vou ter que responder com um e-mail muito bem escrito! Tragam o dicionário!”. Quer dizer, hoje em dia a gente nem usa dicionário, usa o Google. Quando quero escrever uma palavra bonita sempre penso em um palavra comum e busco um sinônimo no Google. Foi assim que descobri o que é doctiloquia. Duvido que a Martha Medeiros procure palavras no Google, ela já sabe tudo de cor.

Sei que a Martha é muito ligada à própria mãe porque, nos poucos e-mails que trocamos, já foi logo citando a mãe. Falou da mãe em duas ou três frases. E, claro, escreve sobre mães como ninguém. As frases da Martha viram aqueles PowerPoints animados que as mães mandam umas para as outras. A forma mais singela de perceber que um escritor é um verdadeiro sucesso.

Assim como a Martha, adoro a minha mãe. Ela é de ferro. Passou por câncer, acidente de carro que vitimou seu namorado, 15 dias de coma na UTI. Ela anda com a perna firme, cheia de cicatrizes, como se fosse um soldadinho de chumbo. Nunca quer ajuda quando estendo a mão para ajudá-la, a não ser quando estamos em público. Quando estamos em público, me dá o braço como se fosse uma anciã endinheirada passeando com seu filho escritor. Seu filho escritor que sonha em ver suas frases em PowerPoints animados.

Assim que conseguiu, minha mãe se aposentou e fugiu pra sua casa de praia. É um condomínio decadente em que as paredes estão sempre descascando. Mas minha mãe não liga. Compra garrafas de vinho branco no supermercado por R$ 9. Não importa se é um bom vinho, por este preço é o melhor vinho que existe. Combina com o jogo semanal de cartas com as amigas. Combina com os filmes da Netflix. Combina com os livros da Martha Medeiros. Combina com as caminhadas no fim de tarde na areia. Combina com a leitura deste jornal.

Ela sempre avalia que meu texto tem muito a melhorar. Sempre diz que a Martha está maravilhosa. Quando colocaram nossas colunas na mesma página, em outro jornal, me mandou foto pelo WhatsApp: “Vocês dois na mesma página!”. Naquele dia pensei: cheguei lá. Na boa, não há mais necessidade de colocar minhas frases em PowerPoints animados. Estou feliz com esse alcance. Com esta companhia. Com a alegria da minha mãe. E claro, com esse vinho de R$ 9.

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