Piangers: Homem que brinca de boneca

Foto Diego Vara
Foto Diego Vara

Minha primeira filha não foi planejada, e demorei um tempo até entender por que minha mulher – minha namorada, na época – ficou tão nervosa quando as duas listrinhas apareceram no teste. Eu sempre quis ser pai, uma espécie de substituição inconsciente daquilo que não tive quando era criança, e não fiquei nervoso com a notícia. Afinal, não era meu corpo que iria mudar. Não era minha profissão que iria mudar. Pra ser sincero, mal seria a minha vida que iria mudar – eu teria ainda nove meses de cerveja, amigos e futebol, não é mesmo? Talvez mais, se a Ana tirasse tudo de letra.

Fui me flagrar o que é ser pai no dia do parto. As pessoas têm aquela visão romântica, dizem que é o dia mais maravilhoso da sua vida. Quando o obstetra, amigo da família, disse naquela manhã de domingo “Vamos fazer a cesária?”, fiquei chocado. “Espere aí! Não estou preparado!” Mas a minha mulher estava, depois de nove meses de espera, e dor, e desequilíbrios hormonais e um chulé inexplicável. Não achei romântico nem mágico, achei brutal e sangrento. E, de noite, depois que todas as visitas inconvenientes foram embora, minha mulher estava exausta, minha filha chorava. Chamei uma enfermeira, perguntei se ela poderia fazer algo para a criança dormir. Ela riu, me olhou nos olhos e disse: “Agora é com você”. E ali virei pai.

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Para o homem, a descoberta da paternidade vem aos poucos. A gente passa anos pra se acostumar com a ideia. Não fomos treinados, não brincamos de casinha, não ganhamos bonecas. Alguns homens acham que tudo isso é coisa de mulher, mas acho que não. A gente deveria ter treinamento desde pequeno pra entender a importância de dividir as funções. Talvez os homens crescessem mais sensíveis, gentis, mais cuidadosos com o sentimento dos outros.

Anita foi crescendo e falando coisas surpreendentes. Como quando disse que queria casar logo, pra poder mandar em alguém. Ela é hoje a pessoa com quem mais gosto de conversar. Quando nasceu minha segunda filha, fiquei com medo de perder a companhia da primeira, mas é inevitável. Hoje divido meu tempo, meu olhar, minha atenção. Dizem que o amor se multiplica, mas ele também se divide. O que multiplica é uma dorzinha, uma vontade de que o tempo seja congelado.

Eu brincava de boneca com minha filha menor esses dias. Demos papinha, colocamos uma roupinha quente, passeamos com a boneca de carrinho pela sala. Uma hora me olhou e disse: “Um dia eu e você vamos casar, né, pai?”. Respondi: “Papai já casou com a mamãe. A sua missão é casar com alguém que seja mais legal ainda que o papai”. Esse alguém está por aí, em algum lugar. Jogando bola, andando de bicicleta. Talvez, brincando de boneca.

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