Piangers: Mães, parem com essa história de “Deixa que eu lavo a louça”. Vocês já fizeram demais por nós

Foto: Pexels
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Acontece até hoje lá na casa da minha mãe. Ela faz o almoço (parêntese: ela faz sempre a mesma comida, arroz, batata cozida e carne assada no forno; não estou reclamando, mãe; apenas acho engraçado e estou aqui contando para os leitores, me desculpe por esta indelicadeza) e, quando todo mundo termina de comer, eu começo a recolher os pratos. Minha mãe grita: “Deixa que eu lavo!”. Eu digo, calma, relaxa, acaba de tomar o vinho (parênteses dois: minha mãe sempre compra dezenas de garrafas do mesmo vinho chileno Santa Ana e estoca como se fôssemos um dia encarar o apocalipse zumbi e só fossem sobreviver as pessoas que estivessem completamente bêbadas – gosto desta distopia e terei muita alegria em me esconder na casa de minha mãe frente a esta eventualidade. Fecha parêntese), deixa que eu cuido da louça. E daí então começa aquele “não, de jeito nenhum” e “deixa que eu lavo” e “não se preocupa, mãe, pode deixar”, e “eu gosto de lavar louça!” e “mas eu gosto mais, olha, já estou lavando!”. Aquela coisa que deve acontecer na sua casa também, amigo(a) leitor(a).

É irônico porque, desde muito pequeno, minha mãe me obrigava a lavar a louça e a fazer serviços domésticos. E cozinhar arroz, batata e carne assada no forno. Porém agora, 30 anos depois, não permite que eu me levante para cuidar dos pratos. Onde já se viu? Sinto que ela está indo contra tudo aquilo que me ensinou, que foi importante para a minha construção pessoal. Na época eu reclamava, é verdade, mas hoje percebo o valor.

Fazer tarefas domésticas me ensinou a importância do trabalho diário, a enxergar o serviço invisível, a entender que, se ninguém fizer sua parte, alguém vai ter que fazer a parte de todo mundo. E claro, me ensinou que essa história de que cuidar da casa é coisa de mulher é uma bobagem. Hoje em dia, tudo o que eu não quero ser é um desses adultos mimados a quem nunca foi permitido lavar uma louça. “Filho meu não lava louça!”, já ouvi mães dizerem. Uma frase tão deseducadora quanto “Filha minha não sai de casa de vestido curto!” ou “Ai da nora que não tratar bem meu filho!”.

Lavar louça é contribuir com uma etapa da refeição, é ter um tempo de digestão antes da sobremesa e também, preciso dizer, é uma forma de fugir das conversas que nos aborrecem. Mães deveriam ter orgulho de ver seus filhos lavando a louça. Deveriam pensar: “Fiz um ótimo trabalho”. Parem com essa história de “Deixa que eu lavo”. Vocês já fizeram demais por nós. Deixem que a gente lave e seque. E, se possível, cozinhe. Talvez algo diferente de arroz, batata cozida e carne assada. (Brincadeira, mãe)

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