Piangers: “Minha filha me perguntou se mulheres PODEM jogar futebol. Claro que podem”

Foto: Pexels
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A gente estava colando figurinha no álbum da Copa quando a Aurora se deu conta de uma coisa. “Pai, mulheres podem jogar futebol no campo?”, perguntou. Me senti num episódio de Handmaid’s Tale. Ela não perguntou se mulheres jogam, ela perguntou se mulheres PODEM jogar. Como se existisse uma polícia, uma lei que proibisse meninas de jogarem bola.

Me dói o coração, especialmente, porque aqui em casa vivemos celebrando a capacidade feminina de fazer todas as coisas. Temos todos esses livros moderninhos, Coisa de Menino e Coisa de Menina, Malala em quadrinhos, Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes (1 e 2!), todos eles e, mesmo assim, mesmo com todas as conversas, com toda a afirmação, com todos os exemplos que gostamos de sublinhar todos os dias (Olha essa astronauta, Aurora! Olha essa cirurgiã! Olha ali aquela mulher que trabalhou na Nasa e ajudou a colocar um foguete na Lua!), mesmo com todo o incentivo para que ela não seja limitada só porque é uma menina, mesmo assim, minha filha me perguntou se mulheres PODEM jogar futebol.

Rapaz, alguma coisa está errada. E eu acho que só os livros não são o suficientes. E não são suficientes esses grupos de Facebook nem os vídeos motivacionais que viralizam e celebram a representatividade feminina, e não são suficientes as manifestações, cheias de palavras de ordem e cartazes PODEMOS SER O QUE QUEREMOS. Simplesmente não é o suficiente, enquanto todos os meninos só puderem fazer futebol, e todas as meninas só puderem fazer balé. Garotos vivem este mesmo dilema: experimente colocar uma roupa rosa no seu filho pra ver o que ele vai sofrer.

Aqui em casa falamos todos os dias que as meninas podem ser o que quiserem, lemos, vemos vídeos, ouvimos histórias incríveis, mas mesmo assim minha filha percebe, olhando ao redor, que mulheres não PODEM fazer algumas coisas.

Podem, filha! Claro que podem!, respondi. E corremos para o Youtube para que ela conhecesse a Marta, um gol atrás do outro, um drible impressionante atrás do outro, um lance inacreditável atrás do outro. Ela tem uns passos, disse a Aurora. E depois de 10 minutos compenetrada na edição eletrizante ao som de uma música eletrônica bagaceira, como são todos os vídeos de compilação de gols no YouTube, a Aurora me falou baixinho: “Eu queria ser ela”.

Quero colocá-la em uma escola de futebol. Vamos descobrir se ela pode.

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