Piangers: “Na nossa cabeça infantil, a falta de noção dos adultos era a razão para o país estar numa crise eterna”

Foto Pixabay, Divulgação
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Talvez pela grande quantidade de candidatos no pleito ou, talvez, pelo clima de briga constante entre as pessoas de opiniões diferentes, essas eleições estão me lembrando da primeira que presenciei, em 1989.

Eu tinha nove anos e lembro das propagandas na televisão. Ninguém sabia direito em quem votar, todos eram novos no assunto, lembro que minha mãe e amigas mudavam de candidato o tempo todo, bastava uma notícia nova, um boato, já estavam todas decepcionadas com político tal, agora a onda era aquele outro.

Lembro do pai de um amigo paulista que nos levou em um comício do Mário Covas, ele colocou até uma faixa na nossa cabeça infantil. Era esquisito porque não importava o que era dito no palco, a multidão gritava com toda força. Eu fiquei assustado com aquilo, achando meio ridículo aquele comportamento de manada. Depois do comício, o pai do meu amigo nos pagou uns sorvetes, o que fez o dia valer a pena.

Entre a molecada de nove anos, gostávamos de fazer graça com o Eneias, que tinha tão pouco tempo de televisão que só conseguia falar o próprio nome; o Marronzinho, que nem o nome conseguia falar no curto tempo de propaganda eleitoral; a musiquinha do Afif, “dois patinhos na lagoa, vote Afif vinte dois”.

Mas nossa música eleitoral favorita era Fera Neném, do Trem da Alegria. “Se eu for presidente você vai se dar bem!”, dizia Juninho Bill no refrão. Tudo era piada entre a gente. Imitávamos os políticos, criávamos nossas propostas esdrúxulas. “Refrigerante no bebedouro!”, propunha um. “Fim de semana de cinco dias!”, gritava outro.

Éramos crianças mas já percebíamos que os candidatos pareciam canastrões. E os poucos adultos que defendiam políticos eram contundentes demais para serem levados a sério. Ríamos escondidos de qualquer gente grande que tivesse caído na lábia dos candidatos.

Os pais da molecada eram essas figuras que diziam querer um Brasil melhor, mas dirigiam bêbados e jogavam bituca de cigarro no chão. Na nossa cabeça infantil, a falta de noção dos adultos era a razão para o país estar numa crise eterna. Eu lembro que a gente achava que ia ser criança pra sempre.

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