Piangers: Não sei em que momento a gente acreditou que PRECISA das coisas

Foto: Pexels
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Era um desses eventos em que as perguntas da plateia vêm em papeizinhos dobrados e, quando disseram que era uma pergunta anônima, já pensei que era injusto porque minha resposta não seria. “Estou passando a maior dificuldade financeira porque preciso fazer a festa de dois anos de aniversário do meu filho e não tenho dinheiro algum”, leu a mediadora, óculos meio caídos no nariz e ar de preferia estar em casa.

“Ora”, respondi, “Você não PRECISA fazer uma festa de aniversário de dois anos pro seu filho”. Alguns pais fizeram “Ohhhh”, como se, na verdade, precisassem, sim, como se eu estivesse dizendo algo como você não precisa escovar os dentes ou você não precisa dar seta quando vai virar à direita. “Precisa, sim!”, imaginei um pai gritando, uma mãe se levantando para ir embora, um copo com o logotipo do evento voando na minha cabeça, uma imensa vaia. Em um canto do auditório apenas um proprietário de uma casa de festas, estas que cobram milhares de reais por uma festa de dois anos de idade, sorrindo escondido nas sombras e por trás de seu chapéu de aniversário e língua de sogra.
Não sei em que momento a gente acreditou que PRECISA das coisas.

Eu preciso de uma televisão nova, esta é uma frase real que, por alguma razão, convencionou-se considerar natural.

Eu preciso reformar minha casa de praia. Eu preciso trocar os móveis lá de casa. Eu preciso trocar de celular, meu celular não está mais tirando foto – e o que fazia esta pessoa antes de 2005 quando os celulares não tiravam fotos ou quando as máquinas tinham 25 poses e demoravam uma semana para serem impressas?

Alguns de nós dormiram em duas cadeiras de restaurante durante boa parte da infância. Nossas festas de aniversário tinham apenas pão com salsicha feito em casa, um pra cada convidado, e brigadeiro de panela. Nossos cachorros não tinham raça nem ração, nem roupinha pra esquentar no inverno. Não sabíamos o que era internet de fibra ótica e voar de avião era um sonho distante. Mesmo assim, éramos felizes.

Me preocupa que, ao naturalizar nossas (ditas) necessidades, a gente se obrigue a outras coisas também. Você não precisa comprar nada na Black Friday. Você não precisa dar presentes de Natal. Você não precisa ser mais rico que o seu irmão advogado. Você não precisa trocar de carro só nesse final de semana de plantão de vendas com preços imbatíveis. Você não precisa viajar para fora do país. Se você quiser, você pode, mas você não precisa. Você não precisa. Só não me joguem tomates por estar falando isso, por favor. Que isso daria uma ótima salada.

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