Piangers: o corporativo venceu

Foto: Pexels, reprodução
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Foi quando demitiram o Antônio que fui corrigido pela primeira vez. Ele tinha sido desligado, não demitido. Mas ele estava respirando por aparelhos?, perguntei, para receber de volta apenas um olhar de reprovação da menina do RH. Não se usa mais a palavra demitido, é deselegante. As pessoas são desligadas da empresa, isso soa mais civilizado na visão da corporação. Quando a pessoa pede demissão, por sua vez, estará sempre se desligando da empresa para ir atrás de novos desafios. Novos desafios, normalmente, significa que a pessoa vai abrir um food truck com um amigo de infância ou prestar consultoria. Todos os demitidos, quero dizer, os desligados que eu conheço estão prestando consultoria.

Consultoria é quando uma pessoa (ou um grupo delas) recebe dinheiro para dizer como uma empresa deve se comportar pelos próximos meses. O consultor não tem risco nenhum neste trabalho – quero dizer, não se diz mais “trabalho”, agora se diz “job”. O job da consultoria é convencer uma empresa de que ela precisa fazer algumas mudanças importantes, normalmente redesenhando a missão, a visão e os valores da companhia. Missão, visão e valores de uma empresa são aquelas plaquinhas que espalham pelos corredores do escritório. Elas dizem coisas como “ajudar nossos clientes a alcançarem seus objetivos”, ou “ser referência em qualidade e excelência”, ou qualquer outra frase abstrata. Os empregados nunca sabem dizer o que é missão, o que é visão e o que é valor da empresa. É um pouco confuso, mas as placas são muito importantes para que, quando perguntados, os funcionários possam espiar pra responder.

Isso quando existiam funcionários. Não existem mais funcionários nem empregados. Você agora é um colaborador. Acho meio desmoralizante. Quando era um empregado me sentia orgulhoso, contava até pra minha mãe. “Estou empregado”, dizia com alegria, último botão da camisa azul abotoado. Agora, estou apenas colaborando. Colaborador é um ajudantezinho, de vez em quando ele aparece para dar uma colaborada. Mesmo quando eu era funcionário me sentia melhor – eu tinha função, tinha um papel a desempenhar. Agora, colaborador, sou aquela pessoa que ajuda quem tem problemas com a impressora.

Os colaboradores se reúnem diariamente para “alinhamento de expectativas”. Ficamos alinhando expectativas por horas, a primeira meia hora é bate-papo, a segunda é esperando o pessoal que vai entrar por videoconferência (call!), a terceira é tentando conectar o Skype, a quarta é tentando conversar com o Skype travando, a quinta é desistindo e depois a gente manda um e-mail com o “report”. Colaboradores precisam se reciclar para não serem desligados. Hoje em dia, tem que ser multitarefa, multidisciplinar, multiclichê corporativo. Senão acaba igual ao Antônio. O Antônio não faz mais parte do quadro de colaboradores. O Antônio não se reciclou e agora está em busca de novos desafios.

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