Piangers: O dia em que fui Papai Noel

Mais de uma pessoa já me disse que eu pareço com o Grinch, aquele personagem de desenho animado e filme que odeia o Natal. Minha cara de mau e barba desregrada me conferem um ar de malvadeza. Ao ponto de alguns amigos me chamarem de Barba Sem Alma. O apelido só me deixava mais amargo. Eu achava que até tinha alma, mas ficar mostrando assim pras pessoas era sinal de fraqueza. Só existia um momento em que eu abria completamente a guarda e virava um doce: quando eu encontrava uma criança.

Assim foi por toda a minha adolescência, até eu conhecer a minha esposa quando completei 23 anos. Ela parecia uma criança, demonstrando os sentimentos o tempo todo. Fazia careta quando ficava triste, tinha um sorriso enorme quando algo bom acontecia. Era como estar perto de uma criança sincera. Isso foi me transformando em um homem mais sensível. Um homem barbudo com cara de mau, mas sensível.

Quando conheci a família da Ana, apesar dessa primeira impressão assustadora, acho que eles gostaram de mim e gostaram ainda mais quando nossa primeira filha nasceu dois anos depois. A Anita tem uma prima quase da mesma idade, filha do irmão da Ana. Quando as duas fizeram quatro anos, o presente mais pedido no Natal foi o mesmo: a primeira bicicleta.

O Papai Noel escolhido para a entrega, adivinhem, foi o único barbudo da família. Um barbudo com cara de mau. Avisei as crianças que precisava ir ao supermercado, saí pela porta principal e dei a volta até um quarto. Coloquei a roupa vermelha que era de um tio da Ana, certamente duas vezes mais gordo do que eu, enchi o saco de presentes com bugigangas e catei as duas bicicletas das Meninas Superpoderosas na garagem. Era a primeira vez que eu me vestiria de Papai Noel: eu treinava baixinho o que iria dizer, experimentava a risada clássica. “Ho, ho, ho”.

Toquei a campainha, suando embaixo daquela touca com algodão. A roupa grande demais. O saco cheio de bugiganga. As duas bicicletas, uma em cada mão. Quando eu olho pra cima, um ninho de abelhas está perto da campainha. Elas parecem ter odiado aquele barulho, e a primeira coisa que viram era este Papai Noel atrapalhado, com as mãos ocupadas. Vieram todas pra cima de mim. Lembro de ser picado no rosto, no pescoço, na mão. As crianças vieram correndo felizes e gritando “Eeeeee”, mas quando abriram a porta viram o Papai Noel jogado no chão, lutando contra abelhas, utilizando suas bicicletas como armas para se livrar das picadas. O Papai Noel gritava: “Fechem a porta! Fechem a porta!”.

Acabei me livrando das abelhas, correndo pra dentro da casa. Empurrei uma bicicleta pra cada prima, virei o saco no meio da sala, gritei “Feliz Natal” e corri pro banheiro tratar tirar aquela roupa. As meninas ainda ficaram uns vinte minutos batendo na porta do banheiro e gritando “Papai Noel tá fazendo cocô!”.

A história do Grinch conta que seu coração era pequeno e ele odiava o Natal. Quando roubou todos os presentes e pretendia destruí-los, seu coração cresceu três vezes e ele se tornou um personagem sensível. Meu coração cresce três vezes toda vez que encontro uma criança. Agora, minha cara de mau, essa cresce três vezes toda vez que encontro um enxame de abelhas.

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