Piangers: O fim

Foto: Pexels
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Acontece que a gente se desentende uma, duas, três vezes e daí é aquilo de sai pra lá e depois a gente conversa. Vai dando aquele orgulho bobo. O orgulhoso prefere se perder do que perguntar o caminho. A gente não conversa e fica uns dias esquisito. Se deixar muito tempo, parece que acabou o amor. A gente começa a perguntar se acabou. Até que você fala uma coisa engraçada, a gente se esbarra na cozinha, seu pé encosta no meu na cama e, na verdade, não acabou coisa nenhuma, volta tudo de novo e parece que a gente está namorando.

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Por uns dias vai ser “meu amor isso” e “meu amor aquilo”, e as crianças vão até estranhar. Vai ter eu segurando a porta pra você, baixando o lixo, ligando no meio da tarde. Vai ter filme e vinho hoje à noite, vamos naquele sushi que você gosta, talvez a vizinha fique com as crianças. Eu passeio assoviando pela rua, e a TV passa que homens que passeiam pela rua assoviando são idiotas, e os amigos comentam que gente que se apaixona só se dá mal. Vai me dando até uma vergonha, será que eu não tô fazendo papel de otário, daí entorta uma resposta e não estamos no melhor dos dias, as meninas estão gritando e estamos com fome e nos desentendemos uma, duas, três vezes e meu deus do céu como é que pode uma pessoa ser assim e você não me entende e entendo perfeitamente mas não concordo e ah, me poupe.

Vai dando um orgulho daqueles de deixar as veias secas e dessa vez eu não vou ceder. E se alguém tenta pedir desculpa o outro já vai falando que isso não é justo e se lembra aquela vez que você fez aquilo e eu não aguento mais. E o orgulhoso prefere se perder do que perguntar o caminho. Por isso, o orgulhoso está sempre perdido. E a gente fica se perguntando se o amor acabou. Deve ter acabado depois dessa. E eu fico esperando alguma oportunidade de falar algo engraçado e se você rir vai me dar uma esperança. E tomara que a gente se esbarre na cozinha, tomara que os pés se encontrem de noite na cama. E tomara que não tenha acabado, que essas pessoas que dizem “quero mais é ser feliz e dane-se tudo” não sabem que “tudo” é o que faz a gente feliz. Dane-se nada.

O orgulhoso prefere se perder do que perguntar o caminho, e eu quero saber o caminho, quero mais esbarrão na cozinha e mais pé se encostando e mais coisa engraçada pra comentar. E se a gente der risada quer dizer que talvez não tenha morrido. Quer dizer que talvez a gente envelheça junto, fique bem murchinho e de cabelo branco junto, com nossos pezinhos ossudos se encostando de vez em quando, com nossas dentaduras do lado da cama, rindo juntas.00

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