Piangers: O que me acalma, se estou com medo de algo, é outra pessoa com mais medo do que eu

Foto: Pexels, divulgação
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Há alguns anos, minha filha pequena ficou com medo do escuro. É assim que acontece: ela era uma menina feliz e confiante e, uma careta de tio ou episódio de Patati Patatá depois, não conseguia mais dormir de luz apagada. Todas as técnicas que usei com minha filha mais velha não funcionaram desta vez. Minha primogênita é cerebral e adulta desde que tinha meses de vida, portanto, explicar a irracionalidade do medo de escuro servia a ela. “Perceba, não existe nada aqui no seu quarto nem em lugar algum da casa, as portas estão fechadas, temos guarita no prédio e papai e mamãe estão no quarto ao lado”, eu dizia. E a garota entendia e dormia tranquila, com menos de dois anos de idade.

Não funcionava igual com minha menor. Ela acredita em fantasmas e lobos maus, vive em um mundo fantástico. Perguntei o que ela queria ser quando crescer e respondeu: “Um unicórnio”. Portanto, quando as luzes se apagam, acredita que figuras mágicas e malvadas podem sair de todas as frestas, que os bichos de pelúcia ganharão vida. Suas descrições do que poderia acontecer se eu deixasse as luzes apagadas eram tão intensas que, ao ouvi-las, eu mesmo ficava com medo. “Realmente, é melhor dormirmos juntos. E de luzes acesas!”, eu dizia.

Tenho um rosto bruto, mas tenho meus próprios medos escondidos. No geral, é medo de morrer ou me acidentar. Tenho medo de cobras e aranhas quando estou no mato (quase nunca). Tenho medo de bungee jump e qualquer esporte radical, que considero sem propósito algum. Tenho medo de viajar de carro em estradas do interior de madrugada. Tenho medo de estar em um acidente aéreo. A única coisa que me acalma, se estou com medo de alguma coisa, é outra pessoa com mais medo do que eu. Daí, então, viro um galo corajoso, explicando por A mais B o motivo daquele mato não ter cobra, a razão do bungee jump ser um esporte seguro, a garantia estatística de chegar ao destino a salvo.

Foi dessa forma que vencemos o medo da pequena. Transformei-a na minha protetora. “Tenho medo de escuro, filha”, eu dizia. “Mas você tem medo de quê?”, ela dizia, me mostrando que não havia monstros dentro do armário. “E se aparecerem monstros de noite?”, eu perguntava. “É só você se concentrar que eles desaparecem”, ela explicava. Dormimos até hoje juntos, contando histórias fantásticas um para o outro. Ela me ajuda a vencer dragões, contribui com ótimos plot twists. No breu do quarto, não temos mais medo do escuro. Estamos muito ocupados nos protegendo mutuamente.

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