Piangers: “O que perde um homem que abandona uma mulher grávida?”

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Eu me sentia incompleto no Dia dos Pais. A professora mostrava pra turma que éramos o tronco de uma árvore genealógica, formados por galhos que vinham dos nossos pais e avós e bisavós e tataravós. Eu olhava aquela árvore e me sentia incompleto. Eu era uma árvore pela metade. Tinha todo um lado de mim que eu não sabia de onde vinha nem o nome, nem nada.

Minha mãe pagava todas as contas sozinha, estava sempre trabalhando, não tinha nem dinheiro, nem tempo pra nada. Mas me ensinou uma coisa: eu podia fazer tudo diferente. Um dia você vai ser pai, meu filho. Você não vai repetir o erro do seu pai biológico. Um dia você vai ser um bom pai.

O que perde um homem que abandona uma mulher grávida? Acordar ao lado da coisa mais fofa do mundo. Ter sua vida transformada por um amor maior do que se consegue explicar. Ouvir reflexões maravilhosas todo dia durante o jantar. Abraços e beijos antes de dormir. Orgulho cotidiano ao perceber que você ajudou a construir uma boa pessoa. Senso de realização, para além do seu trabalho no escritório. Para muito além do que qualquer outra realização.

Porque, no final da vida, ninguém se lembra do resto. Você trocaria tudo por mais um dia de vida. Por mais 10 minutos abraçado nos seus filhos. Por mais 10 segundos rodeado de quem você ama.

Minhas filhas mudaram meu segundo domingo de agosto. Neste Dia dos Pais, sinto como se meu coração quintuplicasse de tamanho. Elas fazem cartinhas. Cantam músicas. Sinto como se as apresentações que elas fazem, descoordenadas, desafinadas, fosse Beethoven. Tudo é mágico. Cada abraço é encantado. Me emociona e me transforma. Eu me sinto sortudo e agradecido. E, depois de tanto tempo, finalmente, completo.

É profundamente emocionante. Aponto para minhas meninas, elas cheias de dificuldades e sem coordenação motora, aponto para elas e digo para as pessoas que estão ao me lado: “Olhe! Aquelas ali são minhas! Eu que as fiz!”.

Quem diria, aqui estou eu, escrevendo sobre o Dia dos Pais, este dia em que eu me sentia abandonado quando criança e hoje me enche o peito de gratidão. Uma coisa eu entendo: o cara que abandonou minha mãe grávida não se sentia preparado pra paternidade porque não foi nem ele, nem quase nenhum outro homem desse lado do mundo, preparado pra ser pai. Homens são preparados pra serem só duas coisas: pegador e provedor. Você vai tentar namorar (usei um termo comportado aqui) o maior número de mulheres para mostrar aos outros homens como é macho; e vai tentar juntar a maior quantidade de dinheiro possível pra mostrar para os outros homens (e mulheres) o quanto é bem-sucedido. Esse referencial de masculinidade está em todo lugar – livros, filmes, conversas, piadas – de forma que não me surpreende quando um homem foge da paternidade. Ele foi criado pra ser um idiota, afinal. Abandonar uma mulher grávida é só mais uma das suas idiotices.

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