Piangers: Por que não bebo uísque

Pexels, reprodução
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Eram ainda os três primeiros meses de adaptação a Porto Alegre e ganhamos uma promoção de uma marca de uísque para um jantar no Barranco com direito a motorista e convidados, a única determinação contratual era que só poderíamos beber o uísque da marca que nos premiara nada de cerveja ou caipirinha, no máximo uma água para acompanhar aquele puro malte que, preciso dizer, não é da melhor qualidade e por isso não citarei nomes. Estávamos eu e minha esposa de um lado da mesa, uma cantora momentaneamente famosa com o namorado no outro lado, e entre nós havia as deliciosas carnes do Barranco e algumas garrafas daquele uísque nacional de terceira categoria. Começamos os trabalhos.

As bebidas destiladas têm a capacidade de nos transformar em pessoas boas, e depois muito boas, e depois boníssimas. Então, como em um plot twist de um seriado americano, transformamo-nos em pessoas diferentes, algo exuberantes, pouquíssimo respeitosas e, quando percebemos, somos as piores pessoas do ambiente. Passei a falar alto demais e a jogar charme para todas as pessoas do restaurante, seja a mulher da mesa ao lado ou o garçom que trazia novas doses de uísque. Quando estou irresistível, faço um desenho com minhas sobrancelhas, uma se levanta e a outra se abaixa, emulando um Francisco Cuoco só que sem a fama nem o dinheiro. A mulher da mesa ao lado me ignorava, é claro, e minha esposa claramente percebia-me como o galã fracassado que sou, portanto inofensivo.

Foi estranhíssimo quando pedi um cigarro para a mulher da mesa ao lado, visto que não fumo nem nunca fumei. Acendi o cigarro e comecei a imediatamente tossir, a ficar vermelho e a imitar um poeta turbeculoso, elegantemente protegendo a boca com o guardanapo de pano do restaurante. Foi quando avistei Luis Fernando Verissimo entrando com sua esposa e amigos no restaurante. Um dos textos que mais admiro, uma das pessoas mais retraídas da literatura mundial, e achei por bem ir falar com ele, depois de oito doses de uísque barato. Testemunhas contam que fui um tanto inconveniente, elogiando seus livros alto demais. Por alguma razão, confundi pai e filho e gritava: “O Tempo e o Vento é maravilhoso! Como foi escrever esta obra?”. Lembro do Verissimo falando apenas um “pois é, pois é”, enquanto se afastava com amigos.

Foi então que voltei para minha mesa e adormeci. Minha cabeça apoiada no meu braço direito, que servia de travesseiro. Na mão, um cigarro apagado que mal fumei. A noite teve ainda vômito, e foi então, neste momento, que a mulher da mesa ao lado não tinha mais como me ignorar, seus sapatos estavam sujos de uísque e lombo de porco. Cheguei em casa de alguma forma, demorei três dias para me recuperar, fui persona non grata no Barranco por anos, nunca mais ganhei promoção alguma na vida, jamais aprendi a fumar, nem pretendo. Evito uísque desde então. Alguns amigos me perguntam o motivo. Está aí a explicação.

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