Piangers: “Quando algo estraga, a gente não joga fora. A gente arruma”

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Tínhamos um acordo aqui em casa de nunca brigar na frente das meninas e nunca ameaçar separação quando não estávamos realmente dispostos a pedir o divórcio. Rompimento é uma coisa muito séria pra você usar levianamente. Resultou em duas coisas: quando discutimos nossa separação, há alguns anos, sabíamos que a coisa era séria (que bom que não tão séria, ainda estamos juntos); e, em segundo lugar, sempre que falamos um pouco mais alto um com o outro, nossas filhas acham que estamos brigando.
A mais nova não aceita nem que a gente discuta roteiro de filme, já vai dizendo: “Parem de brigar”.

A mais velha fica só analisando a conversa e dizendo: “A mamãe tá certa” ou “O papai tá certo”. É uma juíza de 12 anos, tentando encerrar qualquer discussão. No fundo, as duas já sabem que existe separação entre pais, não sabem bem como as pessoas chegam a esse ponto, mas sabem que existe e não querem que aconteça conosco. Sempre que assopra uma vela ou vê uma estrela cadente, minha filha deseja a mesma coisa: “Que nossa família nunca se separe”.

Acredito que as crianças lidam bem com separações se os pais forem maduros e amigos, mas, em outros casos, um rompimento deixa marcas. Nos separamos por orgulho ou raiva, por erros e mágoas, porque achamos que tem algo melhor. Mas talvez o algo melhor seja essa mesma pessoa, com os ajustes necessários. Quando algo estraga lá em casa, a gente não joga fora. A gente arruma.

Esses dias, estávamos todos no carro. Fazemos brincadeiras que, tenho certeza, vou sentir falta quando elas crescerem. Contamos carros de outras cores; citamos um país com cada letra do alfabeto; falamos uma palavra e os outros têm que adivinhar que música tem aquela palavra. A Aurora disse que queria ter filhos, mas só depois que soubesse todas as músicas do mundo. Rimos. Quando estamos juntos, não precisamos de nada mais. Eu agradeço por termos passado por todas as dificuldades, por estarmos ali reunidos fazendo coisas desimportantes. Pela vida ser boba e sem propósito. E, especialmente, por todas as velas e estrelas cadentes.

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