Piangers: Que nunca acabe

Se me permitem, gostaria de contar uma coisa. Faz um ano que lancei um livro chamado O papai é pop. É um livro que conta a história da minha mãe, da falta que (não) fez meu pai biológico, a minha história de pai tentando acertar e ser mais presente e atencioso. É um livro que mudou a nossa vida e trouxe muito carinho pra nossa família. Por isso, estamos lançando A mamãe é rock – a versão da minha mulher sobre os fatos; e O papai é pop 2, mais uma compilação de crônicas sobre filhos. Você pode ver tudo no meu site.

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Uma das coisas mais bonitas nessa história é que a última crônica do primeiro livro se chama Que nunca acabe. Já era uma vontade de que essa coisa mágica, que é a infância, não terminasse nunca na vida da minha filha.

O texto é o seguinte:

“Domingo a gente foi andar de bicicleta. O dia estava acabando, tinha um monte de outros pais e outras filhas na ciclovia. O sol ainda batia de lado e uma brisa boa soprava, enquanto minha filha falava sem parar. Era um desses dias de calor no meio de outros dias de frio. Um desses dias que a gente esquece que existe qualquer problema. Era um desses dias que, enquanto você aproveita, vai sentindo uma nostalgia porque sabe que vai acabar.

Ela disse que não tinha medo da morte. Mas tenho medo do futuro, pai. Tenho medo de crescer. Tenho medo de você e a mamãe envelhecerem. Tenho medo de virar adulta, de ter que arrumar um emprego. Tenho medo de ter contas pra pagar. Não tenho medo da morte, pra mim a morte não é a pior coisa que pode acontecer a alguém.

A morte é como dormir pra sempre, só isso. É muito pior sofrer um acidente, não poder mais correr, nunca mais andar de bicicleta. É muito pior ver os pais envelhecerem, saber que vão morrer.

Eu só dizia que “sim”, que “pois é”. Que eu também sentia assim. A brisa batia no meu olho e era uma boa desculpa pra qualquer lágrima eventual. Ela dizia que queria congelar o tempo. Queria ficar pra sempre com 10 anos, a irmã com três. Os pais congelados com essa idade. Eu gosto do meu colégio, pai. Das minhas amigas. Gosto da nossa vida, da nossa casa. A gente andando de bicicleta e ela falando essas coisas sem saber que eram bonitas.

Falava tudo isso sem saber que eu sentia a mesma coisa. Era lindo e doído ao mesmo tempo. Como uma música triste em um casamento. Como um jovem que adoece no verão. Como um dia quente no meio dos dias frios. Um dia que você sabe que vai acabar”.

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