Piangers: “Se nossos filhos serão brilhantes, não sabemos”

Foto: Pixabay
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Existe um ditado irlandês: “É melhor ter sorte do que ser rico”. Adoro esse ditado. Quero ter sorte.

Uma vez um colega disse, desdenhando de um “boa sorte!”, que sorte é para incompetentes. Que seja. Vou optar pela sorte. Agradeço todos os dias pelas coisas boas que me aconteceram, que não têm explicação científica alguma. Alguns chamam isso de Deus.

Me lembro até hoje do Caio, um garoto raquítico de pele muito branca de quem todos gostávamos porque tinha o videogame mais legal e sempre nos convidava para ir na casa dele. Ele ganhava um presente toda vez que tirava uma nota boa. Ele ganhava um presente realmente caro sempre que passava de ano. Eu tinha inveja do Caio. Toda vez que eu tirava nota boa minha mãe falava: “Não fez mais que a obrigação”. Passava de ano e ouvia: “Não fez mais que a obrigação”. Era o melhor da turma e “não fez mais que a obrigação”.

Ouvi falar esses dias que o Caio destruiu seu carro novinho dirigindo bêbado. Fiquei chocado. Me fez pensar na influência negativa de pais que nunca dizem “não” pros filhos. Mas pensei também na influência de bons pais. Será que teremos sorte?

Pais atenciosos, esses que passam horas estudando com os filhos, pais que conversam, que dizem não, esses pais podem, por alguma razão inexplicável, ter filhos malsucedidos. Ter filhos que fazem coisas erradas. Imaginem que tristeza é, para um pai dedicado, não ver seu filho brilhar. Que mundo injusto é esse, em que nós, humanos, somos tão imprevisíveis.

Se nossos filhos serão brilhantes, não sabemos. Aproveitamos cada momento torcendo pra que sim. Se tivermos sorte. Se tivermos sorte, serão decentes, bem-sucedidos, ajudarão outras pessoas, mudarão o mundo. Se tivermos sorte. Serão bondosos, reconhecidos, sorridentes e educados. Se tivermos sorte.

Terão valido a pena as noites em claro, as vezes em que não pensamos no trabalho, as tardes de estudos, a dedicação, as conversas, a abnegação. Teremos feito tudo isso, e talvez dê certo, talvez não.
Se der certo, seremos os pais mais felizes do mundo. Não fizemos mais que a obrigação.

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