Piangers: Sei que vou morrer, não sei a hora

Pexels, reprodução
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No meu último dia de vida quero acordar bem cedo, com minhas filhas ao redor. Quero que elas tenham dormido comigo na cama, talvez tenham vindo sorrateiramente no meio da madrugada, colocando-se entre eu e minha esposa. Quero beijá-las e observá-las dormindo pela última vez. Quero sentar na cama, colocar chinelos quentes, caminhar até a cozinha. Meu último café da manhã será com torradas, café com leite, se não for pedir muito, um ovo de gema mole.

Quero conversar com minha esposa pela última vez, longa e calmamente. Quero dizer que a amo. Sou profundamente agradecido porque tenho a impressão de que ela me deu tudo o que tenho. Tudo o que tenho de bom dentro de mim foi colocado lá por ela, em conversas como esta. Nem ela, nem eu, sabemos que este é meu último dia. Quero que minhas filhas acordem devagar. Quero preparar-lhes frutas, ouvir seus pedidos e satisfazê-los pela última vez. Quero me sentir útil na função de pai, mesmo sabendo que não tenho agora utilidade alguma.

Quero caminhar com a mais velha pela rua, de mãos dadas. Ouvir seus dramas mais desimportantes. Prestar atenção, já que é a única coisa que posso fazer. Quero sentir em suas opiniões alguma maturidade inesperada, uma sugestão de que ela sabe se virar sem mim. Quero passar algum tempo beijando a orelha da mais nova, quero beijar seu pescoço e sua testa e seus cabelos, quero dar beijos estalados no vácuo de sua cavidade auricular. Quero que ela peça “de novo!” infinitamente. Que por mil anos possamos rir juntos.

Quero jantar no meu restaurante favorito. Quero tomar meu último vinho com meus melhores amigos. Quero rir com suas piadas bobas, me sensibilizar com sua pureza. Quero que o lugar fique vazio e possamos dar gargalhadas até de madrugada. Que o chef e os garçons sentem-se na nossa mesa. Que alguém faça um brinde bonito. Quero chegar em casa feliz. Quero me deitar ainda rindo das coisas que me aconteceram. Quero ter uma lembrança boa. Quero fechar meus olhos e começar a perder a consciência. Quero sentir minha mãe me cobrindo.

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