Piangers: “Ter uma família grande, hoje em dia, é luxo”

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Considero hilária e simultaneamente terrível aquela imagem que circula por aí, de uma senhora sentada em um sofá, rodeada por familiares que olham para seus celulares e não conversam entre si, e a legenda:
“Vovó está muito solitária. Vamos visitá-la”. Aquela coisa que chamávamos de “almoço de domingo”, com toda a família conversando e brigando ao mesmo tempo, o momento familiar semanal em que nossos pais demonstravam afeto com macarrão e sobremesa, aquele evento sagrado e desconfortável para genros recém–chegados, este tão importante evento parece com os dias contados nos tempos atuais.

Sou de família diminuta e nunca tive desses almoços de domingos de novela. Aquela gritaria sempre me fascinou. Pois assim que viemos morar perto da sogra, o almoço de domingo se tornou meu dia favorito. A chance de experimentar um pouco daquela italianice cinematográfica. Os irmãos vão chegando com seus filhos, meninas de patins, kits para fazer pulseiras de elástico, slimes pegajosos, meninos com bolas de futebol e a sogra apavorada com a sujeira, o barulho e a bagunça.

Minha sogra, quando está irritada, começa a bater forte as portas dos armários da cozinha, uma espécie de código para “parem de desarrumar minha casa e me ajudem aqui com essas panelas”. Deixa que eu levo a salada ali pra mesa. Alguém pode arrumar os talheres? Meninas, parem de pular no sofá. Mãe, mãe, mãe, mãe, mãe, mãe. O quê? Posso ir na casa da prima hoje? Não, o arroz tá queimando. Desliga o fogo pra mim? Você viu a pesquisa que saiu? Mãe, mãe, mãe, mãe, mãe, mãe. O quê? Ela pode ir na minha casa? Pode. Eeeeeee. Parem de pular no sofá. O macarrão está servido. Quem quer suco de uva? Não é pra comer com a mão! Pra mim vai ser um segundo turno desastroso. Mãe, mãe, mãe, mãe, mãe. O quê? Derrubei o suco.

Olho para o almoço de domingo com fascínio. Sou espectador, apaixonado pela experiência. Gosto da bagunça, do barulho. Gosto até mesmo das brigas. Mesmo quando a família discute, geralmente por conta de alguma opinião política, mesmo quando isso acontece, olho pra todos eles com deslumbre. Eles não sabem a sorte que têm. Ter uma família grande, hoje em dia, é luxo. Ter um momento semanal pra juntar os primos, brigar com os irmãos, desagradar a mãe com sobras no prato. É raro e valioso, um bom almoço de domingo. Tem que se admirar. É coisa de se agradecer.


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