Piangers: Uma festa móvel

Paris é uma festa, o livro, caiu (literalmente) em minhas mãos quando eu e minha mulher tomávamos café em uma padaria na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, em uma manhã de sábado. Era a única padaria da cidade que servia “eggs Benedict”, aquele tipo de lanche com pão e ovo de gema mole que é tão simples e tão gostoso e, ainda assim, padaria alguma serve. Dupla sorte, a padaria estava naquelas de fazer campanha pela leitura, leve um livro e deixe um livro, fui mexer na estante e caiu o livro de memórias do Hemingway. Comecei a ler ali mesmo e não conseguíamos parar.

Lembro que foi em 2012 porque este foi o ano que viajamos pra Curaçao e terminei de ler o livro em um bar na beira da praia chamado, justamente, Hemingway Pub. O livro despertou uma sequência de leituras: O sol também se levanta, Adeus às armas, os livros de contos, os livros do Mark Twain (ídolo do Hemingway), os livros do Fitzgerald (amigo do Hemingway). Quando saiu Meia-noite em Paris, eu era o próprio Owen Wilson, deslumbrado com a possibilidade de viver a Belle Époque.

Foi emocionante quando a primeira amostra do meu livro chegou lá em casa, comecei a ler meus próprios textos e eles estavam diferentes. Textos no Facebook são de um jeito, no livro são de outro. O papel tem um elemento tátil, não eletrônico, dobrável, molhável, não carregável na tomada, que dá ao texto mais eternidade. É como se um texto em um livro fosse durar pra sempre. É uma impressão minha, de um velho que aprendeu que publicações grossas e amareladas são mais importantes, que cresceu precisando de enciclopédias para poder fazer as tarefas escolares em casa. Aprendi a respeitar os livros.

Quanto mais a tecnologia entra na nossa vida, mais a gente sente falta do toque humano. Estou escrevendo este texto no bloco de notas do meu celular, em um avião, de fones de ouvido. Todas as tecnologias nos dão mais conforto, mas também nos dão uma nostalgia. A gente quer iPhone, Netflix, videogame, mas também quer parto humanizado, vinil, comida orgânica. A gente sente saudade de ser mais humano. Saudade de comprar fruta direto do produtor. Saudade de caminhar descalço na grama. Saudade de cheiro de livro novo.

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