Piangers: Tempo perdido

Não existe pai satisfeito com o tempo que dedica aos filhos

Foto: Pixabay
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Confesso a situação ridícula que foi, quando as meninas estavam de férias neste verão e ficamos mais de 15 dias distantes, eu dormir abraçado com um travesseiro e sonhar que eram minhas filhas. Também não foi fácil quando fizemos algumas ligações e eu não segurava o choro. A minha cara inchada, não conseguia nem falar sem soluçar. Uma cena patética de total desespero, de um viciado em fofura em abstinência involuntária.

Deve ter algum feromônio, um cheirinho de baba e cocô que faz a gente ficar dependente daquilo. Eu quero o abraço das minhas filhas. Eu preciso de um abraço agora, doutor! Você não entende! Naqueles dias de férias, elas lá e eu aqui, não podia ver uma criança fofinha que já queria pegar no colo. Forcei alguns bebês de amigos a colocarem seus bracinhos ao redor do meu pescoço. Recebi apenas choro e desprezo.

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Minhas filhas voltaram. Foram recebidas com abraços longos demais, chegou uma hora que tentavam se desvencilhar de mim. Pareciam grandes. A menor tinha aprendido a falar algumas palavras novas. A maior, a comer sushi. Eu não participei daquilo.

Não existe pai satisfeito com o tempo que dedica aos filhos. Cada hora no escritório é uma hora a menos com seu filho. Cada fim de semana em viagem é um fim de semana a menos de beijos, risadas, conversas, briguinhas. Com um agravante: vai passar. Esse tempo é irrecuperável. Não é que quando você se aposentar seu filho de três anos vai continuar lá, com três anos, esperando você pra andar de bicicleta ou fazer um desenho de mão. Talvez ele já tenha crescido. Talvez ele esteja adolescente, te achando um banana. Aí, o que a gente faz? Espera pra curtir o neto?

Espero conseguir aproveitar mais dias, mais minutos, mais segundos, mais milésimos de segundos perto das minhas filhas. Espero que dure. Espero que possa recuperar o tempo que perdi. Espero que inventem uma máquina que nos permita voltar no tempo. Serei o primeiro a usá-la.

Espero que eu passe tanto tempo com elas que ache chato, um dia. Que eu canse. Que elas venham me abraçar e eu diga “Ai, hoje não, não aguento mais abraço”.

Quem eu quero enganar. Nunca vou falar isso. Sou completamente viciado. O primeiro passo é reconhecer.

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