Do prazer à compulsão

Uma amiga querida convidou para um café no shopping, tardes atrás. Como era um dia atipicamente calmo na minha vida, aceitei, até porque precisava também pagar umas continhas, e poderia aproveitar para fazer as duas coisas. Decidimos primeiro ir às lojas. Entrei na primeira loja e me dirigi ao caixa para fazer o pagamento.
– Vai lá que te espero aqui, dando uma olhada nas roupas – ela disse.
OK. Entrei na fila, paguei e não devo ter demorado mais do que alguns minutos. Quando a reencontrei, ela já estava com uma sacola cheia de roupas e bijuterias, e disse que só faltava dar uma passadinha na seção de calçados. Estranhei tantas compras, já que ela havia me dito que só iria me acompanhar. Comprou várias peças, sem experimentar nada.
– Se não servir eu volto aqui e troco tudo. Sempre faço isso, acho divertido – explicou.
Vi que ela estava mesmo decidida e com cara de felicidade, e resolvi não criticá-la. Passamos na livraria e parei para dar uma olhadinha básica na vitrine. Minha amiga não aguentou e entrou na loja. Voltou com livros para ela e um para mim, de presente. Eu havia ficado do lado de fora da livraria segurando as (várias) sacolas dela.
Comecei a achar aquela atitude um tanto estranha, não só pelo volume de compras, mas pela voracidade e velocidade com que ela pegava os produtos, pagava no cartão de crédito e saía da loja. Parecia que nem se importava muito o quê estava comprando. Na terceira loja ela agiu do mesmo jeito, e eu achei que como amiga deveria intervir. Sugeri que deixássemos as outras compras para mais tarde e fôssemos tomar o café, com a desculpa de que eu já estava com fome.
Decidi ser direta e perguntei se ela estava com algum problema. A primeira resposta foi negativa. Estava tudo ótimo, ela respondeu, mas não fiquei convencida e insisti. Trabalho? Marido? Filhos? O sorriso dela foi desaparecendo aos poucos. Eu sabia que deveria haver algo errado. Ela disse que se sentia muito solitária depois que as filhas foram estudar fora, e o marido começou a fazer longas viagens em virtude do trabalho. Ela tem uma profissão e um bom salário, e começou a fazer compras para se distrair. O que era um prazer virou compulsão. Compra tudo o que vê, e quando chega em casa com várias sacolas entra em depressão, com vergonha de não ter resistido à tentação.
Eu fiquei apenas ouvindo, achei que ela precisava mesmo desabafar. Contou que tem várias roupas que ainda estão com a etiqueta, e caixas e mais caixas de sapatos que sequer foram abertas. As finanças, claro, vão de mal a pior. Usa o limite do cheque especial e do cartão de crédito. Paga juros sobre juros, numa bola de neve que cresce na mesma medida de sua compulsão. Só que cada dia precisa comprar mais para sentir aqueles poucos minutos de felicidade.
Está claro que ela precisa de ajuda, embora ainda negue isso. Quem a vê, sempre linda, maquiada, toda arrumada, poderosa e distribuindo largos sorrisos, deve pensar: aquela ali, sim, é feliz. Tem tudo o que quer !
Como a gente se engana com as aparências. Toda essa “máscara” serve apenas para esconder o quanto sua vida é triste e solitária.

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