Reflexão: um respiro depois do fim

Eu queria muito estar falando sobre cabelo, sobre pele negra, sobre algum acontecimento especial com alguma mulher negra deste mundão, mas não consigo.

Nesta segunda-feira (29) acabou um dos períodos mais tensos da política brasileira contemporânea, e eu resolvi me abrir totalmente e ser honesta comigo neste momento. Eu estou acabada. Destruída mesmo. Estava acreditando que a maioria teria o mesmo senso crítico e de empatia que eu. Sabe que até eu penso: o que uma mulher de 25 anos que nunca falou de política e que não é a maior entendedora na área está agora se metendo nesse assunto?

Declarei minha posição abertamente desde o primeiro turno das eleições presidenciais, pois como influenciadora digital e representante de uma camada da população que geralmente é a menos privilegiada em qualquer situação, eu vi como uma responsabilidade moral e como parte do meu trabalho. E pensando bem, tinha como se omitir? Sou mulher, jovem, negra e gaúcha (um dos estados mais racistas do Brasil mesmo com uma representatividade de 20% da população do Rio Grande do Sul). O que sou e tudo que faço para alavancar a estima das mulheres negras já é um ato político.

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O pouco de esperança que existia em mim foi aniquilado por 55% dos votos válidos brasileiros. Mas o corpo negro e de todas as minorias são políticos. Com a onda de ódio que se instaura sob o aval do presidente eleito, quero mesmo é proteger a todos da maneira que for.

Fazia tempo que a onda da política não me atingia tanto como nessas eleições. Eu sinceramente queria que tudo fosse mais tranquilo, que as opiniões de cada um não fossem tão polarizadas. Foi pesado, todo mundo deve estar esgotado – pela comemoração ou pela tristeza mesmo. O que devemos fazer agora é cuidar da gente, da nossa saúde mental. Precisamos estar fortes.

Mas resolvi fazer da dor um local mais confortável e de reviravolta. Perdemos, mas estamos aqui. A sementinha da Marielle está em todas nós. Logo no fim dos resultados divulgados, uma onda de proteção surgiu, o movimento “Ninguém solta a mão de ninguém” despertou um sentimento de comunidade com aqueles que estavam inconformados. Através de uma imagem (em destaque nesse texto) nas redes sociais, os quase 45% restantes trocaram mensagens de conforto e reconhecimento daqueles que estão lado a lado.

Meu sinceros desejos para que o medo que sinto agora acabe e que o nosso novo governante não cumpra tudo que falou em suas promessas e conversas televisivas. Que aqueles que estavam esperando um líder radical para soltar seus venenos e fúrias compreendam o que é humanidade. Não queremos a volta de 1964, queremos um Brasil decente para todos. A resistência ao novo governo é enorme e todos estarão alertas.

Se a intenção é um novo Brasil que ele seja protegendo a vida das minorias, com mais educação, saúde, cuidado ambiental e menos violência.

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