Segredo confessado: não tenho equilíbrio

Para variar, eu estava comprando sapatilhas. Olhei para a moça que experimentava sapatos sentada no banco ao meu lado. Ela calçava um lindo par de sandálias douradas. O salto era enorme e bem fininho. Tão alto que a jovem ficava só com a pontinha do pé apoiada no chão. Como é que consegue? Confesso que fiquei morrendo de inveja.

Vou contar um segredinho: nunca usei salto. É, isso mesmo, n-u-n-c-a. E olha que já vivi um bocadinho. Sempre fui um pouco desastrada (tá bom, tá bom, muito desastrada), daquelas de cair do nada, tropeçar um pé no outro, e de preferência quando tem muita gente por perto. Já morri de vergonha, principalmente quando era adolescente. Imaginem o mico. Depois, aprendi a rir dos meus próprios tombos. Agora não acho mais engraçado, porque depois de “uma certa idade”, cair dói, deixa manchas roxas pelo corpo e pode ser perigoso.

Lembro-me de pelo menos três tombos históricos – e dois deles foi de tênis. Se eu usasse salto alto é bem provável que ficaria mais tempo no chão do que em pé.

Voltando à moça. Ela ficou linda, sexy e as pernas pareciam bem mais esguias com o salto alto. Eu devo ter olhado para ela com uma cara de “ai quem me dera usar uma dessas”, tamanho o olho que coloquei nas sandálias.

Quando jovem namorei alguns meninos altos – o que, na teoria pelo menos, me daria oportunidade de usar sapatos mais sociais. Triste esperança. Um dia fui a uma loja decidida a comprar meu primeiro salto alto – tipo primeiro sutiã, aquele que a gente nunca esquece.

Escolhi um scarpin preto. A vendedora trouxe, e assim que calcei os dois pés e fiquei “nas alturas” vi que não conseguiria me equilibrar. Pedi para ela me ajudar, em tom assim meio que de brincadeira (mas não era). Ela me deu a mão, e eu me agarrei com tudo, como se fosse uma tábua de salvação. Vontade de não soltar nunca mais. Desisti da compra, óbvio, depois de quase morrer de vergonha. Olhei de canto de olho e tenho certeza de que ela estava me acompanhando com um sorrisinho zombeteiro.

A segunda tentativa foi no meu casamento. Nem dava para chamar aquilo de salto. Era uma leve protuberância debaixo da sola. Mandei forrar de cetim banco o sapatinho, parecia coisa de princesa. Não dormi uma semana, e não era de ansiedade com a cerimônia nem medo da vida de casada. Era pânico de cair na igreja. Na véspera, desisti. Não do casamento. Do tal sapatinho bonitinho forradinho e com saltinho.

– Mãe, vamos atrás de uma sapatilha.

Achei, exatamente como eu queria: iguais as de sempre, só que brancas, para combinar com o vestido de noiva. Rasteirinha, rasteirinha. Meu casamento, enfim, estava salvo.

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