Superpoder feminino

Só a mulher tem a liberdade de se sentir ofendida e se retirar a qualquer momento de qualquer local

Foto: Félix Zucco

Só a mulher tem a liberdade de se sentir ofendida e se retirar a qualquer momento de qualquer local. Ela tem um passe-livre da mágoa. Uma pulseira vip do camarote da tristeza. O homem não. O homem nem pensar.

Eu invejo esse superpoder. É uma habilidade sobrenatural, muito melhor do que os dois braceletes indestrutíveis da Mulher-Maravilha, que repele balas e raios, ou de sua tiara que funciona como bumerangue. Sua namorada pode estar conversando com você num bar, de uma hora para outra fechar a cara e deixá-lo plantado na cadeira.

Ela evaporará da multidão sem explicar nada. Você herdará a caipirinha de morango ainda cheia. Terá que ir atrás dela. Pagar a conta e ir atrás dela. Pagar a conta, retirar seu carro do estacionamento e ir atrás dela.

Não entenderá o que aconteceu para gerar a atitude intempestiva. Mas ela é que tem razão. Foi você que disse algo que a desagradou profundamente. Uma palavra áspera, uma grosseria involuntária, uma falta de gentileza são suficientes para abandoná-lo.

Por se ver sempre culpado, o homem corre igual a uma ovelha no encalço de sua pastora. Como não compreende o desaparecimento, conclui que é um idiota. Além de ferir, tampouco percebeu que feriu. Duplamente consternado por não conter a agressividade e não se dar conta dela.

Todo sujeito se desespera. Não tem tempo de pensar e voa em direção ao pedido de desculpa. Ela não facilitará as pazes: em prantos, desligará o celular, não permitirá que entre em casa e dirá que não quer mais falar com você.

Nenhum marmanjo resiste a ser esquecido em público: é a flechada derradeira do cupido.

Já fui largado em cinema, teatro, balada, pub, shopping, boliche. E nunca permaneci parado, atirei-me à rua para reavê-la. Bate um medo da fúria feminina, do que ela pode cometer quando consternada. Responsabilizo-me por eventual fatalidade. Esquecerei pudores e cuidados com a reputação. Gritarei “me espera!” na Padre Chagas lotada, vou subir o velocímetro na Ipiranga (não há maior perseguição policial do que entre dois motoristas apaixonados e brigados).

Já o homem não desfruta desse direito. Se abandonar sua companhia no meio de um compromisso, mesmo com a realidade a seu favor, ele é um estúpido, um mau caráter, um boçal.

Será visto como um covarde pelo resto do relacionamento. Como que ele leva uma convidada para um lugar e não sai do estabelecimento acompanhado dela?

O sofrimento masculino tem a obrigação de ser educado.

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