Thamires Tancredi: “Me dói ver uma guria achando que precisa transar sem vontade para segurar homem”

Nem a protagonista de
Nem a protagonista de "I Love Lucy", dos anos 1950, deveria concordar com a história de sexo para segurar homem, né?

Eu sou uma pessoa até que bem otimista. Tento enxergar sempre a metade cheia do copo, essas coisas. Quando alguém, principalmente uma mulher, solta uma daquelas frases que parecem ter saído de alguém no século 19, faço um baita esforço para me colocar no lugar dela e entender o porquê daquilo ter saído de uma boquinha em 2017. Não que eu seja uma Madre Teresa de Calcutá, compreensiva e benevolente que só – aliás, beeem longe disso. É que sei que ninguém nasce “desconstruidão”, sabe? Umas mais, outras menos, mas a maioria esmagadora de nós foi criada num contexto em que a mulher não tinha tanta voz e querer assim.

Mas, às vezes, o esforço pra tentar entender a amiga precisa ser, assim, quase digno de Mulher-Maravilha. É o caso da pérola que a atriz Déborah Secco proferiu essa semana: “Se você não faz sexo com seu homem, outra pessoa vai fazer. Homem não fica sem sexo”. Whaaat, Déb? É sério? E ela continua, em um vídeo publicado (e depois excluído) do YouTube da blogger Julia Faria: “Está com preguiça? Começa! Porque a parte chata é só essa preliminar de começar mesmo. Depois que começou, fica gostoso”.

Ai, gente, 2017 e tem mulher que ainda pensa isso? Me dói, de verdade, ver uma guria achando que precisa transar sem vontade para segurar homem. Se o cara cobrar isso de você de qualquer maneira, fica a dica: sai fora que ele não vale a pena. Não dá para ficar numa relação em que o seu par veja você como uma boneca inflável, que precisa estar disponível quando ele (aqui, numa relação hétero) quiser. Sexo implica duas pessoas, né? No mesmo timing, com a mesma vontade de chegar lá. Se um não quer, os dois precisam parar – e quem segue querendo que se resolva sozinho, sei lá. E vale lembrar que, se uma das partes força além da conta, tem um nome só: estupro.

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E quando você se obriga a fazer algo que não quer só para que o outro fique feliz… Guria, isso não é uma relação saudável nem com futuro. Não caia nessa de que você tem que ignorar sua preguiça e “fazer um esforço”. Sexo não é academia em que você precisa se esforçar e vencer a preguiça & a Netflix para se jogar na esteira. Antes de tudo, a gente precisa respeitar nossas vontades, e isso inclui também nosso desejo de transar ou de virar pro lado e dormir. Simples assim.

O que mais me preocupa e entristece nessa história toda é que o pensamento da Déborah reflete o de muitas mulheres: nossas tias, nossas avós e até nossas amigas. Um exército de mulheres fortes e modernas em muitos aspectos, mas que ainda se sentem na obrigação de fazer determinadas coisas ou se portar de um jeito específico porque é mulher. Sabe o tal estereótipo de gênero? É o que coloca todas as mulheres na mesma caixinha de “femininas, subservientes, doces e compreensivas”. Que nos condiciona a pensar que precisamos ceder à pressão de fazer o que não queremos pelo bem do relacionamento. Do outro lado da moeda, é o tal estereótipo também que molda o homem como alguém guiado pelo instinto e pelo desejo, que precisa ser satisfeito sob pena de não responder por seus atos. Sabe aquela história de “homem é assim”? Homem não é assim. Ele foi criado para pensar que pode ser assim e que todo mundo precisa aceitar e entender. Mas, spoiler: ninguém é obrigada, viu?

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Gurias, o que fica de lição desta história toda é: não faça nada que você não queira. Não vá ao jogo só porque ele fez chantagem, não troque de roupa porque ele fez ciuminho por sua saia curta e não transe se você não estiver a fim. A gente precisa parar de ignorar nossas opiniões para não passar por “revoltadinhas”. Ou, pior, por ter medo de ser largada. Se o cara traiu porque você não fez algo que ele queria… O problema na real é ele mesmo, que provavelmente é alguém mimado e egoísta. Ah, guris: a gente sabe que existem vários espécimes legais de vocês espalhados por aí, viu? Mas dá pra melhorar sempre – o próprio comportamento e o de outros caras a sua volta. Se o amiguinho veio reclamar que a namorada não está comparecendo, dá um peteleco de leve na orelha do rapaz e ajuda o moço a perceber que tem como ser mais gente fina nessa relação.

Vamos deixar essa personagem de época da Déborah ficar no passado e focar em 2017? Vem, gente!

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* Os gifs que ilustram este post são do seriado I Love Lucy

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