Thamires Tancredi: Os homens não estão proibidos de paquerar, só precisam aceitar quando a mulher diz “não”

Foto: Pexels, Divulgação
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Bem antes de aprender a falar mamãe ou mamá, muitos bebês já balbuciam – e entendem o significado – do “não”. A pequena e eficaz palavrinha vira escudo para se livrar de tudo o que, afinal, os pitocos não querem: da verdura ao banho, da vacina ao casaquinho. Mais do que personalidade, demonstra a vontade real daquele serzinho.

Quando a gente cresce, o “não” ganha novos (e mais fortes) contornos, é verdade. Mas o conceito, vamos combinar, é exatamente o mesmo. Se aprendemos desde pequenininhos a definição e o valor de um bom “não”, por que tem gente que esquece quando fica adulto, hein?

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Não parei de pensar sobre o poder do “não” quando li que o ator Henry Cavill – sim, o moçoilo de olhos azuis que dá vida ao Super-Homem – declarou, em entrevista à GQ Austrália, que não flerta mais por medo de ser acusado de assédio. Disse Cavill: “Há algo de maravilhoso em um homem indo atrás de uma mulher. Eu acho que uma mulher deveria ser cortejada e perseguida, mas acho que eu sou tradicional por pensar assim”. Nem preciso dizer que a infeliz declaração repercutiu horrores, né? Há quem ache que hoje tudo é considerado assédio e que era bem melhor antes, e também quem veja o comentário do ator como um belo mimimi de quem ainda não sabe viver em um novo contexto social. Por ter nascido em uma cultura que coloca o homem na posição de garanhão que precisa conquistar a fêmea, a gente até compreende de onde vem essa ideia tão antiga. Não é só culpa dele ter pensado assim. Mas é dever dele ouvir e entender porque esse pensamento é ultrapassado – afinal, é sobre isso que tanto as mulheres falam hoje. Como acredito demais no poder do diálogo, pego na mãozinha e ajudo:

Cavill, querido, não há problema nenhum em ser tradicional. Você gosta de abrir a porta do carro para a gata? Tudo bem, se ela curte também. Quer pedir em namoro de joelhos no chão do restaurante, com um violinista entoando uma canção romântica? Vai na fé. O que não dá é para confundir tradicional com retrógrado – e é essa imagem que você passa ao culpabilizar as mulheres por reclamarem de flertes ofensivos.

Quer cortejar a mocinha na festa? É só ter educação e saber parar quando você está sendo inconveniente. Se você perguntou se poderia sentar ao lado dela no bar e ela disse que não, aceite e não insista. Vocês estão dançando juntos e deu aquela súbita vontade de beijá-la, você se aproximou, mas ela disse que só foi à festa para dançar e não está a fim? Continue dançando, e só. Ou vá atrás de outra moça que te interesse. Não é tão difícil, mesmo. E, importante: nunca force nada que a pessoa claramente não queira. Como diz o título desta coluna em letras coloridas e bem chamativas, “não é não”.

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Vale lembrar que há gurias que não se importam de ouvir um elogio querido como “linda”. E outras que não curtem, se sentem invadidas. Quer dizer algo do tipo para ela? Pergunte se pode. “Queria muito dizer que você me chamou a atenção desde que entrei aqui…”. Ela perguntou por quê? Responde, moço! Mas se ela fez cara de paisagem ou disse que prefere não conversar, deixa a guria em paz. É só isso. É consentimento, é respeito ao outro. É entender se você está sendo chato e inconveniente. É perceber quando está coagindo a pessoa, depois de ter ignorado vários sinais de “não” – é quando chega neste estágio que a coisa se torna assédio. Ou seja, amigão Cavill: ter vontade de dizer que a guria é linda não é um problema, desde que ela queira ouvir. Oferecer um drink e pedir para sentar ao lado dela também não, se ela disser que pode. O problema é gritar supostos elogios para quem não quer escutar, é puxar pelo braço (ou pelo cabelo), é pegar pela cintura, é tentar bloquear a passagem dela.

Mas o maior problema na sua fala, Cavill, é a ideia de que a mulher deve ser “perseguida” como forma de cortejo. Perseguir alguém para mostrar que você está a fim só funcionava naqueles desenhos da idade da pedra, em que o homem das cavernas arrastava a pretendente pelos cabelos, e olhe lá. Aliás, perseguição é crime, viu?

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Ou seja, Cavill (e guris): ninguém está proibindo vocês de paquerarem. A linha entre flerte e assédio passa longe de ser tênue. É quase um abismo, na verdade. Dica de ouro para entender quando os limites podem estar próximos? O bom e velho “não”. Está na dúvida? Pergunte, seja sincerão. Converse com uma amiga, com a irmã, sei lá. Mas não cola mais esse papinho de que tudo é assédio, viu? Se a gente respeitar o espaço e as vontades do outro, todo mundo (transa e) fica feliz.

Ah, não custa lembrar: se, mesmo com todas as discussões de hoje, alguém ainda acha que um flerte querido e inteligente é a mesma coisa que assédio, talvez o melhor seja ficar quieto mesmo e deixar a boca fechadinha.

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