Thamires Tancredi: Por que Pabllo Vittar virou um ícone de força e representatividade para todas nós

Foto: divulgação
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Se você ainda não ouviu falar de Pabllo Vittar, provavelmente é questão de tempo. Aos 23 anos, dona de um falsete (e um rebolado) característico, ela é a cantora da vez. Acaba de estrelar, ao lado de Anitta, o novo clipe do trio gringo Major Lazer, que inclui Diplo _ produtor de nomes como Madonna e Beyoncé _, Sua Cara. Em poucos dias, veio o recorde: é a melhor estreia de um videoclipe em 2017 no YouTube, com 20 milhões de visualizações só nas primeiras 24 horas. E contando.

Talvez você não saiba, mas, com pouco mais de dois anos de carreira, é da Pabllo o hit do último Carnaval, Todo Dia. Tocou muito: nos bloquinhos, na praia, na festa LGBT e na balada top. Quem esteve na folia, aliás, cantou junto com Rico Dalasam, rapper gay que divide os vocais com a drag queen.

Ah, e o gênero é no feminino mesmo, viu? Isso porque Pabllo se apresenta como drag queen – mas, de verdade, não se importa se você falar “o Pabllo”. Gosta mesmo de seu nome e não dá bola para gênero, como muitos representantes dessa geração, que deixaram para trás todo o significado do artigo.

Assumir o nome que recebeu da mãe quando nasceu, em São Luís do Maranhão, enquanto se veste como drag, é só um dos méritos que fazem Pabllo ser tão incrível e um exemplo tão grande de representatividade. Nordestina, gay e afeminada, como faz questão de deixar bem claro. Drag queen desde os 17 anos, quando foi à farmácia e comprou um lápis de olho, um batom e alguns apliques, que no fim ficaram “parecendo um dread”, como já contou em entrevista.

– Quando coloco a peruca, ninguém me tomba – dispara, em um vídeo gravado para a Trip TV.

Com o apoio incondicional da mãe, que criou Pabllo e a irmã gêmea sozinha, começou a se montar e não parou mais. Deixou de cantar só no chuveiro e gravou uma versão em português de Lean On, hit de 2015 do Major Lazer – sim, aqueles mesmos com quem ela acaba de dividir a cena no clipe que quebrou recordes. E, sim, o cálculo está certo: tudo isso, em menos de dois anos.

Você pode até não ser fã do tipo de música que Pabllo faz, dos figurinos coloridos ou da voz. O que não dá para negar é a força dessa artista: do clipe amador na piscina de alguém a um dos lançamentos mais comentados do ano. Tudo isso, repito: sendo gay, afeminada e drag queen em um país de Bolsonaros.

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Pabllo vai na contramão, e é por isso que é um exemplo tão forte para essa geração. Em tempos em que o ideário conservador ganha força, tira (ainda mais) o espaço das mulheres e marginaliza (mais e mais) a população LGBT, Pabllo é autêntica e não tem medo de mostrar quem é. Dá para ter noção do que é para um adolescente gay, que está acostumado a ouvir piadinha e todo o tipo de escárnio barato na escola e na rua, ligar a TV e ver uma drag queen cantando para o mundo todo ouvir? É a tal da representatividade que a gente tanto fala aqui: se enxergar e ser visto é para lá de necessário. É importante para quem está com a personalidade em formação se ver refletido em alguém. E é crucial para que a gente pare de ver o diferente como algo ruim – e passe, de verdade e com toda a naturalidade possível, a celebrar mesmo a pluralidade.

– Uma drag estar conquistando esse espaço é muito importante – reflete, no vídeo da Trip. – Ser afeminado é revolucionário no sentido de dar a cara a tapa. São as bees afeminadas que estão na posição de frente. Elas que levam o baque primeiro. Elas que levam lâmpada na cara, entendeu?

Definitivamente, Pabllo não esperou o Carnaval para estourar: o fez bem antes, e agora é explosão, é tiro, porrada e bomba. Brilha muito!

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Ah, e não dá para deixar de ressaltar dois pontos: mesmo com todo esse sucesso, Pabllo segue sendo vítima de preconceito. No lançamento do videoclipe no último domingo, Amin Khader ignorou a drag queen enquanto entrevistava Anitta, ficando de costas para Pabllo. A poderosa fez de tudo para mudar a situação. Sugeriu, inclusive, que Amin se colocasse no meio, para falar “com as duas”. Depois do puxão de orelha, ele até ficou no lugar que Anitta pediu, mas, quando a reportagem foi ao ar, Pabllo foi cortada.

Mais: Perez Hilton, blogueiro americano (em decadência) de celebridades, citou apenas Anitta e Diplo ao anunciar o clipe de Sua Cara. A Major Lazer, também esquecida, foi lá e corrigiu: “e com @pabllovittar também!”. Recalcado que só, Perez respondeu que havia ignorado de propósito e que, para ele, a única drag relevante era RuPaul.

Pergunto: até quando tem gente que vai tentar invisibilizar uma artista por preconceito? Mais: RuPaul é um ícone, ninguém nega (e, aliás, muitas amamos), mas existir outra drag em evidência não minimiza a importância da precursora. “Menas”, né, gente? Espaço tem para todas.

E, aliás, a gente te mostra o trabalho de quatro drags gaúchas incríveis na página 20, na matéria do colega Caue Fonseca. Se você quiser se aprofundar nesse universo – e, garanto, não vai mais querer sair -, vale conhecer, além do seriado RuPaul’s Drag Race, o trabalho de duas drags brazucas incríveis: o rap colorful de Gloria Groove e o humor de Lia Clark. E, claro, tomar uns bons drinks no bar Workroom, na Cidade Baixa, todinho inspirado nas drags de RuPaul. Can I get an Amen?

Confira o clipe de Sua Cara, com Anitta, Diplo e Major Lazer

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