Thamires Tancredi: Sobre Melissinha e o machismo no ambiente de trabalho

Foto: Pexels, Divulgação
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“Primeiro dia de trabalho. Melissa, estudante de comunicação social de uma faculdade particular de Brasília, logo mostrou a que veio.” Foi assim que um jornalista começou a coluna que assina no jornal Correio Braziliense, veiculada na edição impressa da última segunda-feira. Parece assim, vagamente, que o colunista vai falar sobre o potencial jornalístico da estagiária? Que ela escreve bem, apesar da pouca experiência? Ou é incisiva e esperta na hora de entrevistar uma fonte? Engano nosso, gurias.

“Decotinho perverso, coxas de fora, pezinhos docemente acomodados em sandalinhas rasteiras. Como se estivesse em uma passarela, a mocinha de 19 anos – recém feitos – desfilou pela redação a balançar os quadris (…).” O texto, que inicia levemente malicioso, logo se revela uma romantização de assédio. Mais um episódio daqueles em que a intenção não é ofender, mas ofende. E revolta. Com detalhes, ele descreve como a chegada de Melissinha (que mais tarde descobrimos que não existe) à redação despertou os instintos da “machalhada”. “Viraram o pescoço em direção à loura-violão. Alguns nem disfarçaram”, prosseguiu. E, sem esforço algum para disfarçar, a crônica reflete um tipo com que estamos acostumadas a conviver no trabalho, na balada ou até na família: o machista naturalizado. Aquele cara que jamais se admitiria machista – nem é conhecido como tal. Só que, de quando em quando, não hesita em dar aquela olhada demorada e constrangedora, do rosto ao dedão do pé, na colega bonitona. Que aborda a guria na festa e insiste repetidas vezes na paquera, mesmo que ela diga não. Que, embora não diga em voz alta, acha que é função de mulher lavar a louça, arrumar a casa e cuidar dos filhos – e que é um favor da parte dele trocar a fralda vez ou outra. E não vê mal nenhum nisso.

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Depois de tantas discussões sobre feminismo lotarem as timelines e as ruas, custa a acreditar que um jornalista – ou qualquer pessoa minimamente esclarecida – escreva com tanta naturalidade sobre uma situação que não pode ser encarada de outra forma que não assédio. Que isso ainda seja visto como normal e corriqueiro. E, aqui, estamos falando de assédio no ambiente de trabalho: quando a mulher, contratada para exercer uma função profissional, acaba por conviver com olhares e comentários inapropriados e constrangimentos, para dizer o mínimo. Imagina você chegar para trabalhar e o colega ficar reparando nas suas “coxas de fora”? Olhando para os seus peitos – ou, como o autor chama, “decotinho perverso”? Mais: sensualizando até a rasteira que você usa? O que é isso se não uma objetificação descarada do corpo feminino?

Perverso mesmo é tratar uma colega de trabalho como objeto, não o decote da estagiária. Ela não está ali para agradar a “matilha da fauna masculina”, como diz o texto, mas para trabalhar e aprender. Ninguém pode controlar o que homem algum pensa, isso é com cada um e sua consciência. Mas é direito de qualquer mulher ser respeitada, sobretudo no ambiente de trabalho. E, caso a ficha não tenha caído ainda: acompanhar o “balançar dos quadris”, secar o “decotinho” e transformar isso em crônica de jornal é, no mínimo, faltar com respeito. Não só com a Melissinha, mas com todas as mulheres. E elas não toleram mais isso de boca fechada. Ainda bem.

Mas não estamos aqui para falar só do colunista em questão – que não é o primeiro nem o último cara a escorregar feio. O que vale mesmo é a gente debater sobre o machismo velado. Aquele aparentemente sem perigo com que, infelizmente, ainda estamos acostumadas a conviver e que segue enraizado na nossa sociedade. Não é o tipo de machismo descarado que faz com que um homem passe a mão na bunda de uma mulher na rua, ou que cometa um ato criminoso como um estupro. Mas é o machismo institucionalizado que constrange, que machuca, que faz com que a gente se sinta um pedaço de carne. Que nos obriga a pensar duas vezes antes de vestir uma saia em um dia de calor. Que faz com a gente seja tolhida de ser ou agir como queremos para evitar olhares pelos quais não pedimos (e que não podemos proibir) sobre nosso corpo. Que nos reduz a um novo corpinho bonito no escritório – substituído por outro assim que passarmos no RH. É aquele machismo que, dizem muitos, “é coisa de homem”. Mas não deveria ser. Esses comentários, olhares ou elogios podem até não ser agressivos, ou parecerem inofensivos. E ninguém merece passar por isso. Ainda mais quando você está trabalhando e tem sua capacidade posta à prova – e, sabemos bem, muitas vezes somos vistas como menos capazes por simplesmente sermos mulheres.

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Vale dizer que o jornalista publicou um texto de retratação em que “reconhece o seu erro e aceita as consequências disso”. Na nova crônica, o autor afirma que “criou uma personagem para mostrar que o problema do assédio às mulheres continua sendo uma realidade apavorante e assustadora”. Ou seja, Melissinha não é de carne e osso. E se a ideia da historinha era fazer uma crítica ao assédio, a revolta feminina nas redes sociais mostra que a tentativa não deu certo. Falamos sim, nas timelines e na vida real, sobre o quanto a situação descrita é cotidiana. Mas não deveria. E a luta é para que o assédio não seja mais parte do nosso dia a dia. O colunista ainda escreve que agora seu momento é de reflexão – e é esse papel que cabe ao homem quando uma mulher questiona uma atitude, uma palavra ou um ato que julga machista. Que mais esse episódio lamentável sirva para alimentar o debate e gerar consciência em todos nós.

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