Ulisses Carrilho: como tem de se vestir a mulher do século 21?

Lauren Bowker prefere dizer que seu campo de trabalho é a alquimia embora tenha estudado Moda, em Manchester, e realizado pesquisas sobre a indústria têxtil no Royal College of Art, em Londres. O último projeto de Lauren é um chapéu com pedras mergulhadas em um tipo especial de pigmento desenvolvido por ela mesma: são 4 mil pedras que mudam suas cores obedecendo a estímulos de diferentes partes do sistema nervoso. Para a alquimista que criou o laboratório The Unseen, especializado em fazer que se enxergue processos que parecem misteriosos através de roupas, a resposta por trás do acessório é simples. A estrutura das pedras obedece à mesma lógica dos ossos humanos, um ambiente altamente capaz de conduzir energia. Bowker é uma alquimista das roupas, mas frequentemente enxerga máquinas no lugar delas.

Em 2014, a sociedade brasileira (com razão) escandalizou-se com os valores da pesquisa do Ipea: 65% dos entrevistados teria afirmado que mulheres de roupa curta merecem ser estupradas. O instituto de pesquisa corrigiu-se: na verdade “apenas” 26% da população brasileira – uma em cada quatro pessoas – considerava, através das roupas que enxergavam, o estupro justo.

Em um momento em que a moda é cada vez menos uma combinação de roupas e o feminino não é apenas marcado pela genitália, qual o espaço e o compromisso da moda feminina? Quando um quarto da população brasileira toma a maneira de vestir como algo significativo para o merecimento de um crime, é hora de repensarmos nossos discursos. Não importa qual seja o comprimento de uma saia, uma mulher não merece ser estuprada. Não digo isso por uma condição especial do feminino, mas ser humano algum merece um crime hediondo.

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Seja pelo exemplo tecnológico de Lauren Bowker ou pelos números do Ipea, percebemos um abalo sísmico nas verdades patriarcais da sociedade ocidental. A moda é mais um processo de significação e uma maneira de criar discursos, não apenas roupas. É o que a torna uma indústria criativa, o que a separa da simplicidade do vestuário.

No caso específico de Bowker, notamos um empoderamento significativo: além de mulheres repensando o vestir, temos a forte relevância feminina no mundo da ciência e da inovação. Um momento bastante significativo para a moda, quando os assuntos se convergem: com o fenômeno da chamada Internet das Coisas, o mercado do Vale do Silício pensa cada vez mais a “wearable tech”, em tradução livre, a tecnologia que podemos vestir.

Patrick Tucker, autor de The Naked Future: What Happens In a World That Anticipates Your Every Move? descreve que em 2008 o número de Internet-connected devices passou pela primeira vez o número de pessoas no nosso planeta. Em 2013, já chegamos à marca de 13 bilhões. No ano de 2020, serão cerca de 50 bilhões. Nesta lista são incluídos telefones, chips, sensores, implantes e, é claro, todos os dispositivos que ainda não foram criados. Está pensando que é pura futurologia?

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No dia 3 de junho, a Google anunciou uma nova parceria da estilista Diane Von Furstenberg para a comercialização de armações do seu mais famoso gadget, o Google Glass. A parceria não é nova: em 2012 a estilista e uma de suas modelos usaram os óculos revelando os bastidores do desfile da marca. A partir do último dia 23, cinco modelos de armações foram lançados em oito cores. Cada armação com lentes de grau custa U$ 1725, enquanto os óculos de sol saem por U$ 1620. Segundo a estilista, “a tecnologia é o melhor acessório”, frase que responde à ironia do título deste texto.

É preciso dizer que a valorização das mulheres – muito clara no vídeo em que mostram Diane ao lado da lead designer do Google Glass, Isabelle Olson – é um fenômeno reativo das marcas aos números. Na revista FastCompany do último mês, Max Chafkin, em “Silicon Valley Has a Problem“, revela que companhias geridas por times mistos têm muito mais chance de sucesso no mercado de tecnologia. Não apenas a moda está do lado das mulheres: a estatística também está.

Para a descobrir o porquê não é preciso reinventar a roda — ou o Google Glass: empresas mistas em raça e gênero são naturalmente mais abertas à diferença, resilientes.

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