Ulisses Carrilho: entre o limite ético e o cartão de crédito

Everything is a remix. E aí? Isso significa que trabalhamos hoje em dia em outra esfera: não importam apenas aqueles que compuseram uma partitura, mas os djs que conjugam faixa atrás de faixa. Não pensamos apenas na inspiração de um artista minimalista conceitual que produziu uma escultura em forma de caixa de sapato. Temos atenção tão grande (ou maior) para qual história contam todas as obras combinadas de uma exposição através da narrativa do curador. No mundo da moda isso não é diferente. Se um estilista decide criar peças na cor preta, provavelmente já temos alguma similar em nosso armário, não precisamos necessariamente comprá-la. O zeitgeist está muitas vezes refletido justamente na cultura do remix. A curadoria. O styling. Não apenas a combinação. Mas as escolhas que cada um de nós fazemos, seja na hora de vestir, seja na hora de comprar.

Prepare-se para a responsabilidade: que escolhas tu andas fazendo? Comprar produtos na China? Na empresa de fast fashion americana acusada de trabalho escravo? Na empresa brasileira que mantém bolivianos em cativeiro no centro da capital paulista? A renda nordestina que é produzida a 20 reais o metro, horas e horas a fio (literalmente), e vendida a preço de ouro no mercado internacional? Minha formação em jornalismo não me deixa citar aqui o nome das marcas que correspondem a cada uma das manchetes, afinal, a apuração de cada uma das frases acima não foi feita por mim. Mas é preciso dizer: qualquer leitora que visita também a parte de economia de jornais consegue facilmente completar este esquema de “ligue os pontos”.

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– Você acha que isso não tem nada a ver com você. Você vai até o seu guarda-roupa e escolhe esse suéter azul folgado para dizer ao mundo que se leva muito a sério pra se importar com o que veste. O que você não sabe é que esse suéter não é apenas azul. Nem turquesa, nem lápis-lazúli. Na verdade, é cerúleo. E você também não tem a menor noção de que, em 2002, Oscar de la Renta fez vestidos cerúleos e Yves Saint Laurent fez jaquetas militares cerúleas. E o cerúleo logo foi visto em oito coleções diferentes. E acabou nas grandes lojas de departamento e, um tempo depois, em alguma lojinha vagabunda onde você, sem dúvida, o comprou em uma liquidação. No entanto, esse azul representa milhões de dólares e incontáveis empregos. E é até meio cômico que você ache que sua escolha a isente da indústria da moda quando, de fato, você usa um suéter que foi selecionado pelas pessoas nesta sala. No meio de uma pilha de coisas.

Eu devo confessar de antemão: meu filme de moda favorito é O Diabo veste Prada. A frase acima inclusive foi tirada dele. A trama que traz a editora-dominatrix Miranda Priestley, livremente inspirada pela megera-chefe da Vogue America, Anna Wintour. Cheguei a apresentá-lo em um seminário da minha pós-graduação em Economia. Citei ironicamente “PRIESTLY, Miranda. (2006)”.

Há quem diga que o mundo da moda é só glamour, mas eu creio na moda como produção simbólica. Não será o mundo da produção de símbolos também uma linguagem? E não será a linguagem uma ferramenta cotidiana? E mais: será possível fugir da produção de significados no dia a dia?

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O aplicativo Making, criado pela Nike, promete tornar mais fácil a fabricação sustentável de roupas. Ele informa estilistas e designers sobre os impactos ambientais dos materiais que utilizam. O app, que é gratis no iTunes, gera um ranking de materiais baseado no impacto ambiental que apresentam em quatro áreas: água, químicos, energia e resíduos. Se a questão é o consumo, indico o app Moda Livre, que avalia os principais varejistas de roupa do Brasil e as empresas que já foram flagradas pelos fiscais do Ministério do Trabalho em casos de trabalho escravo.

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