Ulisses Carrilho: moda e grifes também se adaptam

Fevereiro de 2014, em uma folga durante a tarde, cheguei à academia para correr numa brecha da agenda. Não conheço muitas pessoas por culpa da minha falta de disciplina. Colega desconhecido vem e fala sobre jogo de futebol. Apesar de tentar, não consegui continuar o assunto. Daí o cara vem me mostrar o tênis dele, diz que comprou ao lado do Mercado Público. Ele não deixou explícito, mas pelo que entendi era num camelô. O vendedor disse que era novidade, tinha chegado no dia anterior. Aquele tênis era meu conhecido. Meio texturizado, meio fofinho: eu tinha certeza que eu o conhecia. Daí ele pergunta o que acho e eu fico em dúvida se traduzia a referência pra ele, se eu contava o que havia enxergado. Como já diria meu querido pai: “Preferes ter razão ou ser feliz?”. Preferi dessa vez deixar o cara feliz: “Pô, meu! Acho que vi esse tênis semana passada na internet. Acho que era até gringo. Afudê.”. Resolvi não mentir.

Janeiro de 2014, na passarela da Chanel, Karl Lagerfeld apresentou os modelos da sua coleção combinados a tênis brilhantes e rendados. A imagem das passarelas refletiu um interesse que aumentou durante as semanas de moda do prêt-à-porter: a pegada esportiva chegou com tudo. Não é novidade que as grandes casas da moda francesa ganham seu quinhão mesmo é na venda de óculos, perfumes e bolsas. Não em roupas! Após o desfile da marca, as vendas da Chanel cresceram 20%.

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No mesmo período de tempo, a Dior, outra marca francesa a apresentar tênis esportivos no seu último desfile, relatou que a idade média de sua consumidora passou dos 45 para os 30 anos de idade. O último desfile da marca, desfilado no dia 7 de julho, mostrou a necessidade de adaptação do mercado de luxo. Raf Simons desenhou modelos que não dizem respeito a uma década de influência apenas. Referências do século 18 foram misturadas às linhas futuristas de Stanley Kubrick em “2001: Uma Odisseia no Espaço“. Tudo ao som de Sonic Youth.

Adaptação também precisa o mercado brasileiro, que aposta na imagem sexy da mulher brasileira, mas tem mostrado novos filões consumidores de artigos de luxo no país. Segundo o IBGE, os brasileiros dobram seus gastos mensais com moda a cada degrau que sobem na escala social. Em outras categorias de produtos, a diferença de gastos por faixa de renda é significativamente menor. À medida que o país enriquece e as pessoas pulam de faixa social, um dos setores mais beneficiados é o da moda.

O mercado evangélico no Brasil — com 42,3 milhões de adeptos, 60% deles da linha pentecostal, liderada pela Assembleia de Deus — faz girar cerca de R$ 15 bilhões por ano em diversos segmentos. Por ano, estima-se que sejam abertas 14 mil igrejas evangélicas no Brasil. Na estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são o cerca de 27 milhões de evangélicos no país, ou o equivalente a 16% da população. Segundo o jornal O Dia, em matéria sobre a moda de luxo gospel, evangélicas chegam a gastar, em média, R$ 6 mil por mês com roupas e sapatos.

O fenômeno já ganhou tantos nomes quanto as próprias igrejas neopentecostais: de moda gospel a crente chic, a elegância cristã tem cada vez mais seguidoras em comunidades virtuais como a “Evangélicas Top“, com quase 30 mil seguidoras. Blogs são destinados ao estilo de cantoras como Aline Barros e Pamela Jardim, que abertamente usam itens de marcas como Chanel, Louis Vuitton e Dior. Aline ainda explica quais marcas prefere quando o assunto é moda nacional, citando Maria Bonita Extra, Animale, Mara Mac e Osklen. Para a blogueira Maanuh, do “Blog da Maanuh“, que conta com 270 mil visualizações mensais, a internet é uma benção pois “serviu para desmistificar a imagem de que o evangélico é cafona”.

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