Viviane Bevilacqua: um pouco de bagunça na vida da gente

As cores do prédio mudaram. O amarelo vivo dos detalhes das paredes e das janelas não existe mais. Hoje é tudo branco. O único contraste é o cinza das grades uma pena as pessoas serem quase que obrigadas a morarem em edifícios com grades! O meu era bem mais bonito quando uma grama verdinha e bem cuidada se esparramava até a calçada. Mas, nos tempos atuais, a segurança é bem mais importante do que a estética. Nos pequenos canteiros as rosas ainda emprestam beleza e perfume àquela esquina.

Deixamos o apartamento – nosso primeiro, para onde nos mudamos logo após o casamento – há quase 20 anos, quando decidimos ficar de vez em Florianópolis. Voltamos lá algumas vezes, porque o imóvel continua pertencendo à família. E sempre que a porta da sala se abre vasculho o lugar vagarosamente com o olhos. Imediatamente um filme antigo, doce e cheio de momentos mágicos me voltam à memória.

Eu tinha vinte e poucos anos quando casei. Aquele apartamento foi nossa primeira (e suada!) aquisição, pago em prestações a perder de vista. Cada móvel comprado era uma conquista, cada cantinho da casa ia adquirindo a personalidade dos donos.

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Lembro-me da tranquilidade da vida de recém-casados. Gostava da sensação de me sentir adulta e dona da minha própria casa. Parecia que brincava de casinha e, no fundo, era quase isso. Não havia muitas preocupações, bastava viver o presente. Montamos um aconchegante escritório no quarto de hóspedes, arrumamos nossos livros e discos na estante e… Não durou dois anos.

O resultado do teste confirmou o que eu instintivamente já sabia: um bebê estava a caminho. Sai o escritório, entra o quartinho para o novo membro do clã. Começava ali a melhor bagunça do mundo: aquela provocada pela chegada de um filho. Carrinho, berço, cadeirinha, pacotes de fraldas, mamadeiras, brinquedos espalhados pelo chão… Os livros e discos permaneceriam encaixotados por muito tempo ainda, pois passados mais três anos veio o segundo filho, sinal de bagunça multiplicada.

Preciso admitir que minha casa nunca mais foi a mesma. Foi muito melhor, isso sim! Mesmo com tudo fora do lugar, mesmo sem ter nem ideia de onde foi parar o controle da TV ou quem foi, afinal, que quebrou o vidro da estante da sala jogando futebol.

Meu apartamento só voltará a ser como foi no início quando meus filhos casarem e saírem de casa. Ai ficará tudo arrumadinho, como quando casei. E eu vou ligar pedindo por favor para que deixem meus netos irem brincar na casa da vovó, e fazer um pouco de bagunça, pois sem ela a casa, por mais linda que seja perde toda a graça

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