Vale a pena ver de novo?

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Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar Foto: Ricardo Wolffenbüttel

“Querido Fabrício! Amor tem reprise? Vale a pena ver de novo? Estou apaixonada pelo ex. Depois de três anos longe e muitos relacionamentos de ambos, nos reencontramos há dois meses numa festa. O beijo foi da primeira vez, uma loucura! Porque não tivemos recaídas antes, jamais tínhamos ficado. Agora a paixão veio com tudo, acrescidas das neuras que fizeram o término da união. O que fazer? Beijo Catherine”

Querida Catherine,

Há uma morte separando vocês. Uma morte emocional. Por isso você o chamou de fantasma. Para uma relação funcionar pela segunda vez, é necessário absorver o que falhou na primeira vez.

Uma possível reaproximação reeditará as brigas e os ressentimentos. É voltar a ficar junto que os vícios da relação retornam com o dobro de força. O ciúme de antes crescerá em possessividade. A preguiça de antes resultará em marasmo. A distância agrava os defeitos, como se ambos houvessem traído o romance neste intervalo todo. Não menospreze as represálias dos órfãos amorosos.

Temos uma profunda dificuldade para perdoar divórcios e abandonos. Não procuramos o amor, mas a perfeição.

Não entendemos que um deslize não abole aquilo que foi bom no passado. Não é porque a pessoa errou num momento que errou sempre. Não é porque mentiu de repente que mentirá sempre.

Somos justiceiros mais do que compreensivos. A gente não perdoa para se mostrar superior. Você acha que o credor quer que o endividado pague sua pendência? Não, ele deseja humilhá-lo. Deseja torturá-lo. É seu canal de catarse.

O único modo de dar certo seu amor pelo ex é destruir a intimidade anterior, quebrar os modelos, os moldes. Jamais dizer “eu te conheço”. Não conhece mais, não. Depois de uma separação, todos se transformam. Uns ficam mais amargos, outros mais humildes. Os dois passaram por namoros, adquiriram hábitos diferentes, amadureceram a sexualidade, cicatrizaram lembranças.

Deve começar a relação do zero. O que é quase impossível, a situação pede uma paciência de desconhecidos. Do zero mesmo. Sem cobrança. Sem fiadores. Retomar pelas perguntas mais triviais: o que ele assiste, vê, lê, faz. Não reprisar filmes e rever fotografias dos tempos felizes. Não repetir viagens e lugares prediletos. Não reutilizar os apelidos mimosos e os beiços.

Esquece que você sabe o que ele gosta. Não compara, não cruza informações. O pior que pode acontecer é testá-lo: para ver se ele mudou ou continua igual. Estará daí analisando, jamais experimentando.

Existe um grande risco de trai-lo com ele de três anos atrás. Raciocine que é um novo beijo, um novo livro. E com novos autores também.

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